Tornar-se monge na sociedade secular de hoje

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Bernardo Bonowitz,OCSO
Mosteiro Nossa Senhora do Novo Mundo
(Campo do Tenente)

I. Introdução:
Uma Nova Paternidade - de João Batista para Jesus
O monge é sempre discípulo. Ele deseja tornar-se o herdeiro autêntico de um mestre, de viver e transmitir dignamente a santidade dos seus modelos. Ele vê no mestre a tradição viva e encarnada, e espera tornar-se o próximo elo desta tradição. Seusombros ardem, por assim dizer, para receber o manto daquele que o formava. Quando monges lêem que na hora da sua morte, Santo Antão,primeiro monge, mandou seu manto para Atanásio, todo mundo entende o que isto significa.
Os monges do século quarto, o século da explosão do fenômeno monástico, buscavam não somente pais contemporâneos, mas pais arquetípicos, patriarcas. Ocupados como estavam muitashoras por dia na leitura, meditação e proclamação pública dos textos bíblicos, sentiam a necessidade de descobrir na página sagrada os antepassados espirituais. Uma vez chegado o tempo de Casiano (séc. 4) , a escolha foi feita.. O primeiro "monge", o progenitor da raça monástica, ia ser Elias- Elias na beira do riacho Querith, alimentado pelo corvo, Elias no cume do monte Horeb, percebendo a voz deDeus como a brisa mansa que segue o tumulto de furacão, ventania e fogo. Junto como ele, como seu espelho neotestamentário, os monges escolheram a João Batista- não certamente, o neném das festas juninas de cachos loiros, acompanhado pelo cordeirinho, mas aquele que vivia escondido no deserto, que abriu a boca só para pregar a única coisa necessária: arrependimento. Misteriosamente, os monges nãofalavam muito a respeito de ser discípulos de Jesus, nem viam seu próprio rosto espiritual refletido na fisionomia de seguidores de Jesus como Pedro, Tiago e João. Isto não quer dizer de maneira alguma que os monges primitivos não adoravam a Jesus, não percebiam nele o princípio e o fim de tudo. Pode até ser que evitavam esta comparação por motivos de respeito: sabemos que a cristologia dosmonges era uma cristologia chamada "alta", isto é, que enfatiza a divinidade de Jesus. Mesmo assim, esta "paternidade mais próxima" de Elias e João Batista necessariamente implica em certas conseqüências.
Porque Elias e João Batista, pelo menos como compreendidos pelos monges egípcios, eram ascetas. Sua austeridade manifestava a santidade do Deus inefável; suas austeridades formavam os graus da escadaque levava à experiência do Deus inacessível. A Bíblia chama os dois de "terríveis"- título de admiração, de certo, e não de condenação. Sua fidelidade radical ao Deus transcendente os incendiava, e fazia com que eles queimassem a quem quer que seja que eles tocassem. Ningúem nunca imaginou bater um papo com nenhum dos dois.
Ora, o tema da palestra a mim pedido é "Ser monge na sociedade dehoje". Eu interpreto este título da seguinte maneira: Como tornar-se monge, viver como monge, vindo da sociedade de hoje, e especificamente da sociedade atual brasileira? Por um lado, meus pobres cinco anos no país não me providenciam uma intuição muito aguda nesta questão. Por outro lado, tenho a vantagem de pessoalmente viver esta situação como um "desafio existencial". Superior de uma comunidademonástica brasileira, para mim é questão de vida e de morte chegar a discernir a interação exigida entre a sociedade local contemporânea e a tradição milenar monástica, para chegar àquela síntese que a gente chama de " inculturação". Evidentemente, seria absolutamente ilícito falsificar as exigências de monasticismo para agradar aos "fregueses", seria um tipo de morte. Igualmente, porém, seria mortecegar-me ao retrato vivo da sociedade brasileira jovem que eu contemplo em cada um de nossos vocacionados, sociedade que vive à uma imensa distância do Egipto do século quatro.
Esta sociedade- aqueles que vêm desta sociedade e aspiram ser monges- precisam de outros pais que Elias e João Batista. Precisam realmente chamar Jesus de pai. Uma longa tradição patrística, iniciando-se na própria carta...
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