Simmel

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O INDIVÍDUO E A LIBERDADE

Georg Simmel

É uma opinião universalmente aceita entre os europeus o fato de que a
Renascença italiana produziu aquilo que chamamos de individualidade -a
superação tanto interna quanto externa do indivíduo das formas comunitárias
medievais que conformavam a forma de vida, a atividade produtiva, os traços
de caráter dentro de unidades niveladoras, fazendodesaparecer os traços
pessoais e impossibilitando o desenvolvimento da liberdade pessoal, da
singularidade própria de cada um e da auto-responsabilidade. Não pretendo
discutir se a Idade Média realmente reprimia de tal modo as características da
individualidade. Mas, realmente, a ênfase consciente desses princípios parece,
com certeza, ser um desempenho da Renascença e precisamente emuma
forma tal que difundiu a vontade de poder, fama, prestígio e distinção em um
grau desconhecido até então.

Se no começo desse período, como se comenta, não existia em
Florença nenhuma moda dominante para a vestimenta masculina, posto que
cada qual desejava se vestir de uma maneira própria e especial, não era uma
questão de diferenciação simples, mas, antes de tudo, um desejoindividual de
aparecer, de se apresentar da maneira mais favorável e merecedora de
atenção do que era permitido pelas formas habituais. O que se toma realidade
nesse movimento é precisamente o individualismo da distinção em contraponto
com a ambição do homem renascentista de se impor incondicionalmente, de
enfatizar o valor de sua própria singularidade.

Reside na própria natureza dascoisas, no entanto, que esse desejo e
essa satisfação não possam ser um traço permanente do homem ou da
sociedade, tendo de desaparecer da mesma forma que um estado extático. Na
medida em que o individualismo se manifesta aqui como uma procura de
distinção, ele deixa para trás, nos altos e baixos e características gerais do ser
humano, tantos compromissos, tantas impossibilidades dedesenvolver suas
forças, de vivenciar livremente sua vida, de sentir a unicidade de sua própria

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pessoa que a acumulação dessas pressões levou, no século XVIII, ao
rompimento com essa noção. A noção dominante, a partir daí, vai numa outra
direção, segundo um outro ideal de individualidade, cuja motivação mais íntima
não é mais a distinção mas sim a liberdade.

Liberdade torna-se noséculo XVIII a bandeira universal pela qual o
indivíduo protege seus mais variados desconfortos e necessidades de auto-
afirmação em relação à sociedade. Ela se torna visível, seja na sua roupagem
econômica nos fisiocratas – os quais homenageavam a livre concorrência dos
interesses individuais como manifestação da ordem natural das coisas -seja
na sua conformação mais sentimental emRousseau -para quem a origem de
todo mal e deformação advém da violência praticada sobre o homem pela
sociedade historicamente constituída -seja na sua versão política na
Revolução Francesa -que eleva a liberdade individual de tal modo como valor
absoluto que nega aos trabalhadores a possibilidade de se unir para proteger
seus interesses seja, finalmente, na sua sublimação filosófica com Kante
Fichte, os quais elevaram o eu como referência última do mundo possível de
ser conhecido, e defenderam sua absoluta autonomia como valor absoluto da
esfera moral.

A precariedade das formas de vida, válidas socialmente no século XVIII,
em relação à capacidade produtiva material e espiritual da época aparecia aos
indivíduos como uma limitação insuperável das suas energias.Limitações
essas visíveis nos privilégios do estamento superior, no controle despótico do
comércio, nos restos ainda poderosos dos estatutos corporativos, na
repressão intolerante da Igreja, nas obrigações servis da população
camponesa, na heteronomia da vida estatal e na repressão às constituições
citadinas.

Na opressão exercida por meio dessas instituições, que perderam todo

o...
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