Resumo de o homem e o mundo natural, de keith tomas

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O DILEMA HUMANO

Keith Thomas

(6º capítulo do livro: "O Homem e o Mundo Natural, Keith Thomas, Companhia de Letras, 1996, págs. 288-258)

A criação do domínio mental da fantasia encontra um Paralelo Perfeito no estabelecimento de "reservas" ou "parques naturais" em lugares onde as exigências da agricultura, das comunicações e da indústria ameaçam ocasionar mudanças na face original daterra que logo a tomarão irreconhecível. Uma reserva natural conserva o estado original que em todas as outras partes foi, para nosso pesar, sacrificado à necessidade. Todas as coisas, incluindo o que é inútil e mesmo nocivo, nela podem crescer e proliferar livremente.

Sigmund Freud, Introductory Lectures on PsychoAnalvsis [Conferências introdutórias sobre a Psicanálise, parte 11I1 [StandardEdition of the Complete Psychological Works of Sigmund Freud, tradução de James Strachey et alii, XVI (1963), p. 372)

Todavia, se brandimos a espada do extermínio à medida que avançamos, não temos razão para lamentar o mal cometido, nem para imaginar, com o poeta escocês, que "-violamos a união social da natureza" [ ... ]. Devemos apenas refletir que ao obter, assim, a posse da terra por conquista eao defender nossas aquisições pela força, não exercemos nenhuma prerrogativa exclusiva. Toda espécie que se expandiu de uma área pequena para um espaço mais amplo, precisou, de maneira análoga, marear seu progresso pela diminuição, senão pelo completo extermínio, de alguma outra, assim como necessitou conservar o seu terreno mediante uma luta bem-sucedida contra as invasões de outras plantas eanimais [ ... ]. As espécies mais insignificantes e diminutas, quer no reino animal, quer no vegetal, também eliminaram milhares, à medida que se disseminavam por todo o globo, assim como o leão, quando pela primeira vez se espalhou pelas regiões tropicais da África.

Charles Lyell, Principles of Geology [Princípios de Geologia, 1830-31, 11, p. 156]

É tão horrível as coisas precisarem sermortas para que nos alimentemos delas - parece tão perverso. E no entanto temos que fazê-lo - ou morrer nós mesmos.

Kate Greenaway a Violet Dickinson, 14 de julho de 1897; in M. H. Spielmann e G. S. Layard, Kate Greenaway (1905), p. 190.


No início deste livro sugerimos que, ao começar o período moderno, o predomínio do homem sobre o mundo da natureza seria a meta inconteste do esforçohumano. Por volta de 1800, ainda era esse o objetivo da maioria das pessoas - alvo, aliás, que pelo menos parecia firmemente ao seu alcance. Entretanto, a essa altura tal objetivo já não estava imune a controvérsias. Surgiam dúvidas e hesitações sobre o lugar do homem na natureza e o seu relacionamento com outras espécies. O estudo cuidadoso da história natural fizera caírem em descrédito muitas daspercepções antropocêntricas dos tempos anteriores. Um senso maior de afinidade com a criação animal debilitara as velhas convicções de que o homem era um ser único. Uma nova preocupação com os sofrimentos dos animais viera à luz; e, ao invés de continuarem destruindo as florestas e derrubando toda árvore sem valor prático, um número cada vez maior de pessoas passava a plantar árvores e a cultivarflores para pura satisfação emocional.

Tais processos eram apenas aspectos de uma modificação muito mais ampla na relação dos ingleses com o mundo da natureza. Faziam parte de todo um complexo de mudanças que, em fins do século XVIII, contribuíram para destronar muitas concepções estabelecidas e criar novas sensibilidades, de um tipo que desde então foi-se tornando mais e mais intenso. São essasmudanças mais amplas que este último capítulo tentará, sucintamente, evocar.

I. CIDADE OU CAMPO?

A primeira grande modificação foi essa que G. M. Trevelyan jamais cessou de lamentar: o crescimento das cidades e a intensificação do que ele chamava "a rígida distinção entre vida urbana e vida rural". Em 1700, mais de três quartos da população britânica ainda viviam no campo; apenas treze por...
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