Razao e sentimento

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  • Publicado : 11 de novembro de 2012
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Os sentimentos expressam estados interiores que podem desencadear determinadas acções e interferir com outras. O homem é um ser de sentimentos pois não é indiferente ao mundo que o rodeia. Experimenta no seu mundo interior, que poderíamos denominar de invisível, uma vez que está vedado aos olhos dos outros seres, um sem número de estados que muitas vezes nem o próprio consegue controlar. Na suaespecificidade o ser humano torna-se como que uma presa vulnerável perante o contexto em que se insere. Por mais que se esforce o homem nunca conseguirá libertar-se da influência que estes estados interiores lhe provocam. É algo inerente à própria condição humana. Será isto uma limitação quando se parte para o conhecimento?
Segundo muitos pensadores os sentimentos são um alvo a eliminar poispodem deturpar seriamente uma análise. Bastaria aqui recordar Martin Heidegger que na sua busca filosófica afirma que “mesmo os mais belos sentimentos não pertencem à filosofia.” Para se atingir um conhecimento verdadeiro teríamos então que pôr de lado todo e qualquer estado emocional que pudesse afectar a nossa perspectiva. No entanto, este filósofo, diz-nos que é necessário que nos deixemos tocarpelo objecto que queremos conhecer. Para chegar ao real precisamos de ter relação com ele. Ao defender esta tese, Heidegger, parece entrar em contradição. Mas não será todo o conhecimento objectivo fruto de uma análise que parte da nossa subjectividade? Não será esta proposta demasiado exigente para o ser humano?
Geralmente os filósofos da corrente racionalista afirmando o primado da razãoentendem que os sentimentos pertencem ao campo do irracional e, como diria Voltaire, “A razão consiste em ver sempre as coisas como elas são.” Ou seja, aqueles que fazem a sua análise do mundo carregados com toda a sua carga afectiva e emocional não estarão a ver as coisas como elas são.
Acredito que alguns estados emocionais podem, efectivamente, deturpar a percepção de uma realidade. Percebo algunsdos fundamentos presentes nos pensadores racionalistas. Todavia acredito que só em estados de extrema dominação dos sentimentos sobre o indivíduo podem conduzir a uma efectiva alteração do real. O homem em si não pode libertar-se de todo e qualquer estado emocional. A razão, definida como uma estância superior aos sentimentos, deixa de ser componente ou exercício humano. O caminho aqui é aceitare integrar os sentimentos dentro da própria razão, pois também ela, parece-me, vive de estados emocionais. O desejo de conhecimento, que é causa precedente da razão, pode ser definido como um sentimento. Um homem liberto de sentimentos nem sequer poderia exercer a razão, muito menos chegar ao conhecimento da realidade. No seu estado de indiferença a razão acaba por estar a usar de um sentimentode apatia em relação ao objecto do seu conhecimento.
Em Hegel vemos uma tentativa de integrar os sentimentos e os estados afectivos na construção racional. Segundo este autor o homem, deixando-se conduzir pelas suas paixões e apetites, acaba por cumprir, sem o saber, os desígnios da razão. Toda a história humana é conduzida por paixões, necessidades, desejos, estados afectivos vários que setransformam no autêntico motor de toda a acção do homem. Um indivíduo concebido sem sentimentos não teria qualquer motivação para pensar sequer em filosofar.
A razão, acredito eu, não é incompatível com os sentimentos. O conhecimento da realidade transcendente só pode vir da nossa visão transcendental. Talvez esta minha perspectiva possa ser demasiadamente husserliana, todavia não encontro outrajustificação para o conhecimento. Faz-me lembrar o exemplo do quadro no qual eu sou um pequeno ponto. Estando inserido em determinado contexto e influenciado por múltiplas situações limito-me à visão que posso ter. Nunca poderei sair do quadro para ter a visão da totalidade e poder explicá-la. Tenho que limitar-me ao que posso alcançar. É natural que uma pessoa que vê um pinheiro pela primeira vez...
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