Preconceito linguistico

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Preconceito lingüístico Marcos Bagno Preconceito lingüístico O que é, como se faz Sedule curavi humanas actiones non ridere, non lugere, neque detestare, sed inteliegere. SPINOZA (Tenho esforçado por não rir das ações humanas, por não deplorá-las nem odiálas, mas por entendê-las') Sumário PRIMEIRAS PALAVRAS 9 1. A MITOLOGIA DO PRECONCEITO LINGÜÍSTICO 13 Mito n° 1 "A língua portuguesa falada noBrasil apresenta uma unidade surpreendente" 15 Mito n° 2 "Brasileiro não sabe português / Só em Portugal se fala bem português" 20 Mito n° 3 "Português é muito difícil" 35 Mito n° 4 "As pessoas sem instrução falam tudo errado" 40 Mito n° 5 "O lugar onde melhor se fala português no Brasil é o Maranhão" 46 Mito n° 6 "O certo é falar assim porque se escreve assim" 52 Mito n° 7 "É preciso sabergramática para falar e escrever bem" 62 Mito n° 8 "O domínio da norma culta é um instrumento de ascensào social" 69 II. O C VICIOSO DO PRECONCEITO LINGIJISTICO 73 1. Os três elementos que são quatro ................................. 73 2. Sob o império de Napoleão............................................ 79 3. Um festival de asneiras . 83 4. Beethoven não é dançado! 94 ifi. A DESCONSTRUÇÃO DOPRECONCEITO LINGUÍSTICO 105 1. Reconhecimento da crise 105 2. Mudança de atitude 115 3. O que é ensinar português 118 4. O que é erro 122 5. Então vale tudo 129 6. A paranóia ortográfica 131 7. Subvertendo o preconceito lingüístico 139 1V. O PRECONCEITO CONTRA A LINGUÍSTICA E OS LINGÜISTAS ... 147 1. Uma 'religião" mais velha que o cristianismo 147 2. Português ortodoxo? Que língua é essa 154 3. Devaneiosde idiotas e ociosos 157 4. A quem interessa calar os lingüistas7 161 A — CARTA DE MARCOS BAGNO À REVISTA VEJA 167 REFER.ÊNCJA.S 185 Primeiras palavras Existe uma regra de ouro da Lingüística que diz: "só existe língua se houver seres humanos que a falem". E o velho e bom Aristóteles nos ensina que o ser humano "é um animal político". Usando essas duas afirmações como os termos de um silogismo(mais um

presente que ganha mos de Aristóteles), chegamos à conclusão de que "tratar da língua é tratar de um tema político", já que também é tratar de seres humanos. Por isso, o leitor e a leitora não deverão se espantar com o tom marcadamente politizado de muitas de minhas afirmações. É proposital; aliás, é inevitável. Temos de fazer um grande esforço para não incorrer no erro milenar dosgramáticos tradicionalistas de estudar a líng como uma coisa morta, sem levar em consideração as pessoas vivas que a falam. O preconceito lingüístico está ligado, em boa medida, à confusão que foi criada, no curso da história, entre língua e gramática normativa. Nossa tarefa mais urgente é desfazer essa confusão. Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi nãoé o mundo... Também a gramática não é a língua. A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever -8-9 Primeiras palavras Preconceito lingüístico apenas uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta. Essa descrição, é claro, tem seu valor e seus méritos, mas é parcial (no sentido literal e figurado do termo) e não pode serautoritariamente aplicada a todo o resto da língua — afinal, a ponta do iceberg que emerge representa apenas um quinto do seu volume totaL Mas é essa aplicação autoritária, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico. Você sabe o que é um igapó? Na Amazônia, igapó é um trecho de mata inundada, uma grande poça de água estagnada às margens de um rio, sobretudo depoisda cheia. Parece-me uma boa imagem para a gramática normativa. Enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio / língua, por estar em movi mento, se renova incessantemente, a água do igapó / gramática...
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