Pra que serve a arte?

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http://fws.uol.com.br/folio.pgi/fsp1998.nfo/query=alain+de+botton/doc/{@1}/hit_headings/words=4/hits_only. Acesso em 26.01.06
Autor: ALAIN DE BOTTON. Origem do texto: Especial para a Folha. Editoria: MAIS! Página: 5-3 8/9599. Edição: Nacional Aug 23, 1998. Seção: AUTORES
Para que serve a arte?
Desinteressada ou terapêutica, a definição de arte divide a história da filosofia
Os filósofosfrequentemente encararam a arte com um misto de curiosidade e inveja. Ora, não são os capítulos finais dos livros de filosofia que fazem as pessoas chorar (exceto os estudantes, que choram de alívio); escultores, músicos e novelistas conseguem agradar o nosso eu mais profundo de uma maneira singular, impossível a qualquer filósofo. As pessoas podem ter considerado Hegel e Hume inteligentes, mas era comByron e Keats que elas queriam dormir.
Eis o que nos leva a questionar: o que é arte e por que ela nos domina de modo tão avassalador? Um dos mais sugestivos pensadores a se debater com essas questões foi o filósofo e dramaturgo alemão Friedrich Schiller (1759-1805). Nas suas "Cartas sobre a Educação Estética do Homem", Schiller reflete sobre o sentido da arte. Começa por distinguir dois ladosda natureza humana: o primeiro, que ele chama de estado sensível, se refere a uma dimensão espontânea, emocional, comum a crianças; a segunda, designada como estado de razão e freqüente em filósofos, implica uma perspectiva racional, ordenada e lógica em relação ao mundo.
Schiller argumenta que a composição psicológica dos seus contemporâneos é fragmentada, sendo-lhes difícil integrar os doislados de sua natureza. É precisamente aqui que a arte entra em cena: Schiller pensa ser ela a melhor maneira de fundir o lado natural, sensível do homem com a sua dimensão racional. A arte poderia educar as pessoas desprovidas de um ou outro temperamento a se tornarem indivíduos mais integrados. Nesse sentido, o pensador argumenta: "Só se transforma em racional um homem sensível tornando-oprimeiramente estético". E complementa: "Apenas a percepção do belo faz do homem algo inteiro, porque ela coloca em harmonia ambos os lados da sua natureza".
Schiller não foi o primeiro filósofo a polemizar a respeito das dimensões terapêuticas da arte. Em sua "Poética", Aristóteles (384-322 a.C.), investigando por que as pessoas gostam de assistir a peças trágicas, chega à noção de catarse. Uma boatragédia suscita no público uma mistura de compaixão e temor quanto ao destino do herói ou heroína. As pessoas choram e se apavoraram ao assistir "Medéia". Ao mesmo tempo, no entanto, a peça desencadeia a catarse ou purgação dessas emoções, de forma que, ao término do espetáculo, o público se sente mais esclarecido e apto a lidar com a realidade que o envolve.
Aristóteles e Schiller influenciarambastante o primeiro livro de Nietzsche (1844-1900), "O Nascimento da Tragédia". Aqui o autor argumenta que a antiga tragédia grega nasceu de uma conjunção de dois impulsos da natureza humana. O primeiro, o espírito dionisíaco, é um estado selvagem de exaltação e embriaguez, enquanto o segundo, o ordenado e frio espírito apolíneo, se expressa na arte como beleza formal. O milagre da arte reside no fato demanter juntos esses dois elementos, unificando ordem e embriaguez.
As perspectivas estéticas de Nietzsche, Aristóteles e Schiller são impressionantemente práticas: o que garante o valor à arte são os seus efeitos benéficos sobre a psicologia do público. Outros pensadores discordaram dessa concepção, particularmente Immanuel Kant (1724-1804), que, em sua "Crítica da Faculdade de Julgar", rejeitaa idéia de que a arte tenha qualquer propósito prático. O filósofo argumenta que nossa abordagem sobre a arte deve sempre se esforçar para ser "desinteressada". O sentimento que nos acomete na frente de uma obra de arte, tal como uma pintura, por exemplo, deve ser destituído de quaisquer desejos físicos pelas pessoas retratadas. Da mesma forma, não devemos nunca ter uma novela identificando-nos...
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