Poetar e filosofar

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  • Publicado : 30 de novembro de 2012
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Poetar e filosofar: poiésis do pensamento

O que é dito através do poema e o que é dito através do pensamento não são de nenhum modo idênticos. Entretanto, um e outro podem, de maneira diferente, dizer o mesmo. Mas isto só se alcançará se o abismo entre poesia e pensamento se abre pura e decididamenteHeidegger, in “A origem da obra de arte”.

Na cultura ocidental, herdeira da tradição Greco-romana, a racionalidade lógica, pautada no raciocínio abstrato e conceitual, firmou-se como saber privilegiado, subjulgando outras manifestações humanas. Desde os gregos, instaurou-se uma tensão entre o sensível e o inteligível, estabelecendo-se, desde então, uma cisão entre o conhecimentoda razão (que inclui a filosofia e a ciência) e o conhecimento da sensibilidade, que abarca, de modo geral, todas as expressões artísticas.
Mas a racionalidade lógica e conceitual, que possibilitou o desenvolvimento da ciência e da técnica, não deu conta de responder às indagações e contradições do universo humano, pois como nos diz Manoel de Barros, no Livro sobre o Nada:

A ciência podeclassificar e nomear
os órgãos de um sabiá
Mas não pode medir seus encantos
A ciência não pode calcular quantos
cavalos de força existem
nos encantos de um sabiá
(Barros, 1996, p. 53)


Diante da incapacidade da técnica e da ciência de preencher os nossos “vazios” e “dobras”, aprofundados pelo mundo do trabalho e pela lógica do mercado, presenciamos na contemporaneidadeo alargamento do conceito de razão. Diante disso, para compreendermos a poesia que é produzida nesse cenário de crise e contradições, é indispensável entendermos, a relação entre poesia e pensamento, visto que nos é solicitado, a todo instante, capacidade de análise, de reflexão e criatividade.
A oposição que se construiu historicamente entre poesia e pensamento é o centro das considerações dePaul Valéry, num ensaio célebre, intitulado Poesia e Pensamento Abstrato, no qual o autor trata da querela entre esses saberes a partir de suas próprias experiências enquanto pensador e poeta.
No supracitado ensaio, Valéry nos mostra que o senso comum costuma simplificar a forma de pensar da arte, por considerar que todo grande poeta é tomado pela inspiração e pelo devaneio descomedido. Valéryassevera, ainda, que essa maneira de conceber o trabalho poético é fruto de uma oposição secular que se faz entre arte e pensamento, pois “a inspiração dispensa o trabalho do pensamento,” (Valery,2007,p.20), visto que, segundo a tradição legada por Platão, o poeta é um mimético, um criador de simulacros, de inverdades que alucinam a mente. E por essa razão, a permanência dos poetas na Repúblicarepresentava uma ameaça aos futuros guerreiros. Sobre a crítica platônica ao fazer poético, obsevemos o que nos diz Eric Havelock:
O alvo de Platão no poeta são precisamente aquelas qualidades que aplaudimos nele: sua versatilidade sua universalidade, seu domínio do espectro das emoções humanas, sua eloquência e sinceridade, assim como sua capacidade de dizer coisas que somente ele pode dizer e revelarem nós mesmos aquilo que somente ele pode revelar. Todavia, para Platão, tudo isso é uma espécie de efemeridade.

Essa postura depreciativa em relação à poesia e às artes, que ainda hoje é alvo de acirrados discussões, denota que a maioria das pessoas não vê a criação artística como uma forma de conhecimento. Ignora-se que o estudo da pintura, da música e da literatura revela formas de lidarcom o mundo e de explicá-lo de outro modo que escapas ao pragmatismo das ciências exatas e biológicas.
Ao longo de seu ensaio, Valey concilia poesia e pensamento nos indicando que a ação de filosofar e o ato poético estão no interlugar, pois todo grande poeta, a exemplo dos grandes pensadores, lida com a mesma matéria, a linguagem, e trabalham para o mesmo fim: “poesia e pensamento são formas...
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