Partido alto da cultura popular

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  • Publicado : 21 de agosto de 2012
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CANDEIA: O PARTDO ALTO DA CULTURA POPULAR


Era chão de terra batida, de barro bíblico; o poeirão subia alto, regadores diligentes socorriam o povo, que na verdade, acostumado às ruas humildes e descalças; fazia pouco caso do pó, brincando descompromissadamente feliz. As coisas eram assim, ou quase foram assim; ou ainda, a narrativa mítica imagina que tenham sido assim. Todavia,acontece que a galhardia nasceu no subúrbio distante (naqueles tempos ainda sertão), num ponto qualquer de Oswaldo Cruz. Mestre Paulo (professor ilustre) dizia com a energia que possui a candura: “todos com os pés e pescoços cobertos”. O tempo ensinou a todos, e de Oswaldo Cruz às imediações do Velho Centro, no morro e no asfalto, “todos só falavam Paulo Benjamim de Oliveira”.
E, assim aescola de samba foi para a rua. O chinelo “cara de gato” sob os pés; jornais, fósforos e tamborins sob os braços. A peruca “loura” de sisal sobre a testa luzidia, contrastando com a pele preta. A “Escola” foi à rua para cumprir seu destino, e a rua lhe pertencia, de tal forma que nunca, antes, em nenhum outro momento; pudesse alguém imaginar que elas, rua e escola, viessem a existir separadamente.Jamais uma frase tão desgastada como a que será dita em seguida caiu tão bem; pois, foi posta à prova a genialidade dos simples, cuja única universidade que conheceram (ou conheciam) era a vida. Foi assim que entre atônito e extasiado, em meio ao carnaval de 1933, um articulista do jornal “A Noite” arregalando os olhos, ao mesmo tempo, que apertava os dedos contra os teclados da “remington” (comonão se usa mais) tascou no papel:
“Malandro é homem que a tudo sacrifica, pelo prazer espiritual de cantar. (...) E, os malandros recebendo agora, a visita da sociedade curiosa de os ver de “perto” em vez de oferecer-lhes, como em Paris, tiros e navalhadas, tratá-a com cativante gentileza[1]”.
Ah! Sim! Não se assustem com Paris e seus “apaches” de brinquedo. A referência está aqui notexto, somente para que nosso jornalista possa comparar os malandros de além mar com os malandros de cá, e, chegar a conclusão definitiva: “devemos abandonar o carnaval branco”, diz ele (ou quase branco, digo eu), “com que cobrimos nosso cosmopolitismo vexado”, e seguir até a Praça XI, onde; “nosso rosto despido de todos os disfarces[2]” será então revelado, sem máscaras, nem alegorias. Aquireside, enfim, o verdadeiro gênio de Cartola e Carlos Cachaça; de Ismael, Bide e Marçal (o Velho); de Paulo, Caetano, Rufino e tantos outros, que a memória revela e oculta; exalta e esquece; atira no limbo e monumentaliza contraditoriamente. A “flor da malandragem”, a semente da “ratulha do pandeiro e violão”; o embrião gerado entre “desclassificados e capadócios” (como costumavam dizer os “Anatoles esacanocratas”)[3] havia, enfim triunfado, e toda cidade, e além; o país inteiro reconhecia nos malandros e nas suas escolas de samba os grandes heróis da nação. Nosso rico “Panteão de glórias” de sagas e efemérides narradas em sambas-de-enredo.
Cantava então Mestre Paulo:

“Cidade quem te fala é um sambista anteprojeto de artista grande admirador // me confesso boquiaberto demanhã quando desperto com tamanho esplendor // Quando nosso infinito se apresenta tão bonito trajando azul anil // Vai o sol lá nas alturas dando maior formosura a mais linda dama do Brasil[4]”
Mestre Carlos Cachaça complementava:
“Pudesse um dia // juro eu faria, do samba o maior herói// Concorreria com as vitórias que existissem entre nós// Seriam páginas de intenso fulgor // E o meu passadoteria maior valor[5]”.

O samba já estava trajando “terno e gravata”, calçando sapatos impecáveis. Já havia conhecido Silas e Mano Décio, quando Antônio Candeia Filho (ainda em sua primeira encarnação) resolveu, após um dia de trampo duro, e, algumas horas de pé, pendurado nas borboletas do “Deodoro”; afrouxar-lhe a gravata e os cadarços, para que pudesse (ele o samba-de-enredo) dançar...
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