Os maias

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ESCOLA SECUNDÁRIA C/ 3º CEB DE LOUSADA

Estatuto do(s) Narrador(es) em Memorial do Convento
Observemos o seguinte excerto: “São pensamentos confusos que isto diriam se pudessem ser postos por ordem, aparados de excrescências, nem vale a pena perguntar, Em que estás a pensar, Sete-Sóis, porque ele responderia, julgando dizer a verdade, Em nada, e contudo já pensou tudo isto.” Nesta passagem,verifica-se que o narrador é, sem dúvida, um narrador não participante – heterodiegético – e omnisciente, que conhece os pensamentos da personagem e que sabe inclusive a resposta que esta lhe daria se a interrogasse num diálogo imaginado. O mesmo não acontecerá em: “Já lá vai pelo mar fora o Padre Bartolomeu Lourenço, e nós que iremos fazer agora, sem a próxima esperança do céu, pois vamos àstouradas que é bem bom divertimento”. Neste “e nós que iremos fazer”, “pois vamos às touradas”, o pronome pessoal de 1.ª pessoa (“nós”) e as formas verbais (“iremos”, “vamos”) induzem um narrador misturado com a multidão, ou seja, um narrador que também é personagem – narrador homodiegético – e que, perdendo, por instantes, a sua faculdade omnisciente, a mais comum em toda a narração, vai observandoobjectivamente o ambiente que o cerca, transformando-se num narrador observador: “A praça toda está rodeada de mastros com bandeirinhas no alto e cobertos de volantes até ao chão que adejam com a brisa e à entrada do curro armou-se um pórtico de madeira, pintada como se fosse de mármore branco”. É possível também ver-se naquele “nós” a presença do narratário, convidado a seguir o narrador até àstouradas, mas, dado o contexto, parece mais verosímil a 1.ª leitura. Já na passagem “João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro ou quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem-fazer, que os há, e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de cortes e cargos, ouçamo-lo com atenção”, não parece haverdúvida quanto à presença de um narratário irmanado com o narrador no imaginar e no acto de ouvir. É quase um traço do discurso de Saramago a conjugação de um narrador heterodiegético e de um narrador participante, sendo que esta “mistura” é feita normalmente sem transição, sem qualquer indicador de mudança. Vejamos, por exemplo, o seguinte excerto: “El-rei foi a Mafra escolher o sítio onde há-de sero convento. Ficará neste alto a que chamam de Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas para o futuro pomar e horta que não hão-de os franciscanos de cá ser de menos que os cistercienses de Alcobaça em primores de cultivo, a S. Francisco de Assis lhe bastaria um ermo, mas esse era santo e está morto”. Neste excerto, se na 1.ª frase temos um discurso de 3.ª pessoa, na 2.ªfrase, a presença dos deícticos (este, daqui, cá) induzem um narrador não só presente como dando a sua opinião, ou seja, cujo ponto de vista é interno. De uma forma geral, o narrador de Memorial do Convento, conhece tudo – o passado, o presente e até o futuro das personagens, os seus pensamentos e sentimentos. Muitas vezes este conhecimento leva a que, sem transição, se passe de um discurso de 3.ªpessoa para um discurso de 1.ª pessoa que representa já o pensamento da personagem. “Neste dia, desde o nascer do sol até ao fim da tarde, fizeram uns mil e quinhentos passos (...) Tantas horas de esforço para tão pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia estar parado, imóvel quando deveria mexer-se, amaldiçoado sejas tu, mais quem da terra te mandou tirare a nós arrastar por estes ermos”. Semelhante a este caso é a passagem directa (sem pontuação, sem verbos que a expliquem) da voz do narrador para a voz de uma personagem. É o que acontece, quando, por exemplo, da narração do narrador se passa para o monólogo do Pe Bartolomeu de Gusmão: “Dentro do casarão esvoaçavam pardais, tinham entrado por um buraco do telhado (...) pardal é uma ave da...
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