Noite de almirante de machado de assis

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Noite de Almirante, de Machado de Assis
Fonte:
ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.
Texto-base digitalizado por:
Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa
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NOITE DE ALMIRANTE
Deolindo Venta-Grande (era uma alcunha de bordo) saiu do arsenal de marinha e
enfiou pela rua de Bragança. Batiam três horas da tarde. Era a fina flor dos marujos e, de
mais, levava um grande ar de felicidade nos olhos. A corveta dele voltou de uma longa
viagem de instrução, e Deolindo veio à terra tão depressa alcançou licença. Oscompanheiros disseram-lhe, rindo:
— Ah! Venta-Grande! Que noite de almirante vai você passar! ceia, viola e os
braços de Genoveva. Colozinho de Genoveva...
Deolindo sorriu. Era assim mesmo, uma noite de almirante, como eles dizem, uma
dessas grandes noites de almirante que o esperava em terra. Começara a paixão três meses
antes de sair a corveta. Chamava-se Genoveva, caboclinha de vinte anos, esperta,olho
negro e atrevido. Encontraram-se em casa de terceiro e ficaram morrendo um pelo outro, a
tal ponto que estiveram prestes a dar uma cabeçada, ele deixaria o serviço e ela o
acompanharia para a vila mais recôndita do interior.
A velha Inácia, que morava com ela, dissuadiu-os disso; Deolindo não teve remédio
senão seguir em viagem de instrução. Eram oito ou dez meses de ausência. Como fiançarecíproca, entenderam dever fazer um juramento de fidelidade.
— Juro por Deus que está no céu. E você?

— Eu também.
— Diz direito.
— Juro por Deus que está no céu; a luz me falte na hora da morte.
Estava celebrado o contrato. Não havia descrer da sinceridade de ambos; ela
chorava doidamente, ele mordia o beiço para dissimular. Afinal separaram-se, Genoveva
foi ver sair a corveta e voltou para casacom um tal aperto no coração que parecia que "lhe
ia dar uma coisa". Não lhe deu nada, felizmente; os dias foram passando, as semanas, os
meses, dez meses, ao cabo dos quais, a corveta tornou e Deolindo com ela.
Lá vai ele agora, pela rua de Bragança, Prainha e Saúde, até ao princípio da
Gamboa, onde mora Genoveva. A casa é uma rotulazinha escura, portal rachado do sol,
passando o cemitério dosIngleses; lá deve estar Genoveva, debruçada à janela, esperando
por ele. Deolindo prepara uma palavra que lhe diga. Já formulou esta: "Jurei e cumpri", mas
procura outra melhor. Ao mesmo tempo lembra as mulheres que viu por esse mundo de
Cristo, italianas, marselhesas ou turcas, muitas delas bonitas, ou que lhe pareciam tais.
Concorda que nem todas seriam para os beiços dele, mas algumas eram, e nempor isso fez
caso de nenhuma. Só pensava em Genoveva. A mesma casinha dela, tão pequenina, e a
mobília de pé quebrado, tudo velho e pouco, isso mesmo lhe lembrava diante dos palácios
de outras terras. Foi à custa de muita economia que comprou em Trieste um par de brincos,
que leva agora no bolso com algumas bugigangas. E ela que lhe guardaria? Pode ser que
um lenço marcado com o nome dele e umaâncora na ponta, porque ela sabia marcar muito
bem. Nisto chegou à Gamboa, passou o cemitério e deu com a casa fechada. Bateu, faloulhe uma voz conhecida, a da velha Inácia, que veio abrir-lhe a porta com grandes
exclamações de prazer. Deolindo, impaciente, perguntou por Genoveva.
— Não me fale nessa maluca, arremeteu a velha. Estou bem satisfeita com o
conselho que lhe dei. Olhe lá se fugisse....
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