Nero

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  • Publicado : 14 de janeiro de 2015
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Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E
assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra
senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um
enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos,acompanhado pelo povo em peso...
Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o
cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer
essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um
lebrão descarado se fora aninhardebaixo da arcada das costelas, de caçoada! Ah, sim, entre dois males... Já que
não havia melhor, ficar ao menos ali. No tempo dos figos, pela fresca, a patroa viria consolar a barriga. Gostava de
figos, a velhota. E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. Não que fizesse grande finca-pé naquela
amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciara comoa uma criança. A
velha toda a vida o pusera a distância. Dava-lhe o naco de broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a
seguir: — Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho. Só a rapariga o aquecera ao colo quando
pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria,
ia cobrindo o telhado. O velho também o apaparicavade tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos
bens de testa desenrugada, punha-lhe a manápula na cabeça, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patrão
novo. Porque o seu verdadeiro senhor era o filho, um doutor, que morava muito longe. Só aparecia na terra nas
férias de Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, o sustentavam, para
que o meninotivesse cão quando chegasse. Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da
filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara
invernos, outonos e primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade,
evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da vozcristalina da dona
nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote.
— Tens o teu patrão aí não tarda, Nero...
O nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, lá onde nascera, não tinha chamadoiro. Nesse tempo
não passava dum pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado à mama da mãe, que lhe
lambia o pelo e o reconduzia à quentura do ninho, entreos dentes macios, mal o via afastar-se. Pouco mais. Com
dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros dum portador. Mas à chegada
teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café. De tal maneira, que quase
se esqueceu da teta doce onde até ali encontrava a bem-aventurança, e dos irmãos sôfregos e birrentos.
— Nero! Nero! Andacá, meu palerma! A princípio não percebeu. Mas foi reparando que o som vinha
sempre acompanhado de broa, de caldo, ou de um migalho de toucinho. E acabou por entender. Era Nero. E ficou
senhor do nome, do seu nome, como da sua coleira. Principalmente depois que o patrão novo chegou, sério, com
dois olhos como dois faróis. Apareceu à tarde, num dia frio. Fora-o esperar na companhia da patroa nova.É claro
que nem sequer lhe passara pela ideia a vinda de semelhante figurão. Seguira-a maquinalmente, como fazia
sempre que a via transpor a porta. Habituara-se a isso desde os primeiros dias. Com o velho não ia tanto. E com a
velhota, então, só depois de ter a certeza que se encaminhava para os lados da Barrosa. Na cardenha do casal morava o seu grande amigo, o Fadista. De maneira que o...
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