Mestre ignorante, resenha

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  • Publicado : 28 de fevereiro de 2013
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A EMANCIPAÇÃO DA INTELIGÊNCIA PARA ALÉM DA SABEDORIA

“Sozinhos, eles haviam buscado as palavras francesas correspondentes àquelas que conheciam, e as razões de suas desinências. Sozinhos eles haviam aprendido a combiná-Ias, para fazer, por sua vez, frases francesas: frases cuja ortografia e gramática tornavam-se cada vez mais exatas, à medida em que avançavam na leitura do livro; mas,sobretudo, frases de escritores, e não de iniciantes. Seriam, pois, supérfluas as explicações do mestre? Ou, se não o eram, para que e para quem teriam, então, utilidade?”

Pode-se resumir a idéia central do livro de Rancière a partir dos questionamentos que o mesmo virá fazer a respeito do papel e conseqüências advindas do progresso racional sobre a educação. Para isso, ilustra com uma alusãohistórica e filosófica a situação preponderante do conhecimento formativo até então nunca questionado por sua prepotência. Trata-se de uma “aventura intelectual” de Joseph Jacotot em 1818 utilizada para exemplo ao longo do livro: um autor francês que foi muito admirado por estudantes holandeses os quais desejavam aulas com o mesmo, porém ambas as partes não dominavam a língua correspondente para talrelação. Por meio de uma edição bilíngüe da obra Telémaco, a troca foi então possível. A questão colocada no livro a partir deste exemplo de experiência é a seguinte: há necessidade ainda de explicações exteriores à própria experiência da leitura? Qual o papel do mestre ao expor um outro raciocínio para esclarecer seus alunos? Apenas a de um reprodutor já que ele cria sobre os comentários de uma obra? E,finalmente: a problemática do papel da instrução coletiva por meio da necessidade em explicar algo enquanto uma evidência não discutível.

Deste impasse entre o mestre e o objeto estudado, no caso o livro, surgem distinções entre o que realmente seria essencial para o aprendizado, daquilo que somente estaria na educação enquanto um acessório, nem sempre percebido ou detectado. Em outraspalavras, o critério superficial da autonomia do professor enquanto sendo aquele que explica é derrubado por Rancière. Porém a desmistificação está mais na estrutura de superioridade do professor no formato de patrão formador de fábricas de progresso e capital do que na importância de uma figura mais velha e experiente presente em sala de aula. A falta de diálogo no conhecimento quando advindo apenas deum lado na sala de aula é que destrói a cumplicidade construída pela descoberta que tanto aluno quanto mestre possam vivenciar.
É a quantidade de multiplicações que uma mesma matéria pode gerar para a sua melhor compreensão que o autor do livro atenta, contra as confusões que o entendimento imediato pode percorrer ou se deixar imprimir sem uma maior orientação. O professor agora é um orientadordo caminho a percorrer pelo raciocínio de quem aprende, aquele que está distante do primeiro contato com a obra por já tê-la conhecido, disponibilizando outras oportunidades de juízos sobre ela. Não mais aquele quem domina e possui uma matéria a ser distribuída, pois conforme argumenta no livro, isto um pai pode muito bem presentear um filho dando-lhe um livro. É como no exemplo dado nos primeiroscapítulos: uma criança age, anteriormente e sozinha sobre as palavras que reproduz ao escutá-las. Porém a “verificação” do que aquilo significa bem como sua compreensão é desenvolvida por meio das suas relações exteriores e suas associações combinatórias posteriores, as quais comporão sua lógica vocabular e avaliativa.

“A revelação que acometeu Joseph Jacotot se relaciona ao seguinte: épreciso inverter a lógica do sistema explicador. A explicação não é necessária para socorrer uma incapacidade de compreender.”

A crise na postura da educação hoje pode ser referida para demonstrar o quanto há a subestimação da capacidade que o aluno possui em aprender, o conflito existente entre a consciência da pessoa com a faculdade de raciocínio e aquela quem incide sobre ela como se fossem...
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