Resenha: o mestre ignorante

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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO PAULO
Resenha: O mestre ignorante – Cinco lições sobre a emancipação intelectual de Jacques Rancière
Anelise Mayumi Soares – Pedagogia 4º Termo
Prof. Dr. Alexandre Filordi

“Todo homem que é ensinado, não é senão a metade de um homem”


Jacques Rancière nasceu em 1940 em Algiers na Argélia. De nacionalidade francesa, teve como escola o Marxismo eEstruturalismo. Suas idéias são notáveis em teorias da democracia e igualdade radical. Sua formação sofreu fortes influências de Karl Marx, Michel Foucault, Jacques Lacan, Louis Althusser, Jean-François Lyotard, entre outros. É doutor em filosofia e até se aposentar em 2000, foi professor da Universidade de Paris 8.
Em seu livro, Rancière se apropria da história e experiência de Joseph Jacotot pedagogofrancês do século XIX, para fazer uma reflexão crítica e uma desconstrução dos fundamentos da pedagogia. O livro lançado em 1987 na França, chega ao Brasil em 2002, e faz parte da coleção Educação: Experiência e Sentido.
As teses de Rancière e Jacotot possuem muita proximidade, ao ponto de muitas vezes ser praticamente indistinguível quem defende (ou rejeita) tal idéia: o Fundador ou o autor:“... é evidente que todo meu trabalho teórico esteve associado à tentativa de falar por meio das palavras dos outros, de fazer falar diferentemente as palavras dos outros, refraseando-as, recolocando-as em cena. Assim, o interesse desse livro está em uma certa arte, em um exercício de refrasear que me permitiu projetar no debate intelectual dos anos 80 todo um léxico e uma retórica inteiramente datadose, inversamente, emprestar a Jacotot, como se estivessem na base de sua reflexão, razões que derivavam da crítica ao pensamento sobre a igualdade, tal como ele se produzia na França dos anos de 1980” (VERMERE; CORNU; BENVENUTO, 2003). Isso demonstra o quanto o discurso de Jacotot é atual.
A tese central defendida, com muita clareza, é de que qualquer um pode ensinar o outro, ainda que ignoreesse conhecimento, ao emancipá-lo, pois todos os homens tem igual inteligência. Todos podem ensinar o que ignoram (a capacidade de ensino é inata a todo ser humano) e, junto a isso, proclamar a emancipação da inteligência.
O livro está dividido em cinco capítulos nos quais o autor discorre sobre as Cinco lições sobre a emancipação intelectual, em que desenvolve os argumentos de sustentação da suatese.
Emancipar as inteligências não é uma questão de método, e sim uma questão filosófica, e sobretudo uma questão política. A partir da descrição de um fato ocorrido com Jacotot, Rancière dará início a defesa de sua tese emancipadora da inteligência humana.
No posto de professor em Louvain, nos Países Baixos, Joseph Jacotot tinha alunos que ignoravam o francês e ele ignorava, igualmente, oholandês. Devido a necessidade de estabelecer uma base comum entre eles, Jacotot aproveitou-se de uma publicação bilíngue do Telêmaco e solicitou, amparado por um intérprete, que os alunos aprendessem o francês, amparados pela tradução. Em seguida, solicitou aos alunos que escrevessem em francês o que pensavam de tudo o que haviam lido. Esperando por textos primitivos e amadores, tamanha foi a suasurpresa ao descobrir que seus alunos, abandonados a si mesmos, se haviam saído tão bem nessa difícil situação quanto fariam muitos franceses. Jacotot questiona-se, pois, se para aprender não seria preciso mais do que querer para poder.
Até esse acontecimento, como todo outro mestre, Jacotot havia acreditado que o ato essencial do mestre era explicar. Ensinar era, em um mesmo movimento,transmitir conhecimento, formar os espíritos, levando-os do simples ao complexo. Assim, seria preciso haver adquirido uma formação sólida e metódica para poder ser um mestre. Mas, eis que um acontecimento mudara todo o rumo do pensamento e da história.
Segundo o autor, que compartilha das idéias de Jacotot, a lógica da explicação comporta o princípio de uma regressão ao infinito. O explicador é o...
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