Maquiavel - a arte da guerra (1521)

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Uma vida no seu tempo José Nivaldo Junior*

N

icolau Maquiavel nasceu em Florença, em 3 de maio de 1469, sendo o terceiro dos quatro filhos (dois homens, duas mulheres) de Bernardo Machiavelli e Bartolomea Nelli. Pertencia a uma família tradicional, que não chegava a ser abastada, com pelo menos dois séculos de existência em Florença. Em seu livro Para Conhecer o Pensamento de Maquiavel,Duvernoy afirma que a família Machiavelli era “honorável ideologicamente, à vontade nesta Florença comunal onde vivem como cidadãos de artes subalternas”. Seu pai era advogado e também estudioso em humanidades, influenciado pelos ventos da Renascença que há tempos sopravam na Itália. Bernardo Machiavelli se empenhou para proporcionar ao pequeno Nicolau uma educação dentro dos melhores padrões de seutempo. Aos sete anos, Nicolau começou a estudar matemática e latim e, aos oito, entrou na escola de Battista de Poppi. Aos doze anos, começou a estudar com o latinista Paolo de Ronciglione e, segundo o testemunho de seu pai, redigia muito bem em latim. A infância e a juventude de Maquiavel correspondem também ao desabrochar de uma nova era, a Idade Moderna, que soterra as antigas instituiçõesmedievais em um vendaval de transformações. É uma época de efervescência, particularmente rica e conflituosa, o epicentro de grandes crises e, ao mesmo tempo, geradora de grandes
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José Nivaldo Junior é professor universitário, publicitário e autor do livro Maquiavel, O

Poder – História e Marketing, publicado pela Editora Martin Claret.

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soluções. Para se ter uma idéia de como esseperíodo foi marcante, basta assinalar que Maquiavel conviveu e foi importante protagonista do Renascimento intelectual, que é, sem dúvida, um dos mais significativos momentos da cultura humana. Foi contemporâneo dos grandes descobrimentos marítimos e da Reforma protestante. Foi espectador e agente do processo de gestação de um novo tipo de Estado, o Estado moderno centralizado, que aboliu osparticularismos políticos feudais e instalou o absolutismo monárquico, cuja forma de governo prevaleceu até o início da Idade Contemporânea. Todo esse cenário grandiloqüente pode ser resumido em apenas uma palavra: transição. As mudanças de instituições e de valores em uma velocidade alucinante, em um ritmo nunca vivido antes pela civilização ocidental cristã, caracterizam uma situação verdadeiramenterevolucionária. Nenhum setor da vida e da sociedade estava livre do alcance do vendaval transformador que tudo atingia, tudo desestabilizava. A vida de Maquiavel corresponde a um tempo de indefinições estruturais: a ordem feudal fora devastada pelo crescimento das cidades e pelo fortalecimento crescente de atividades mercantis, artesanais e financeiras, que a cada dia se incompatibilizavam mais emais com a economia agrária, então baseada no feudo auto-suficiente e na exploração servil do trabalho. Embora o feudalismo resistisse, como tentou continuar ainda nos séculos seguintes, era forçado a abrir um espaço cada vez maior para novos conceitos e padrões. Os dois fundamentos básicos sobre os quais se apoiava a estrutura medieval de poder, o clero e a nobreza, já não conseguiam mantersozinhos a hegemonia política. A trama de dominação do feudo erguia-se em um complexo escalonamento de poder até chegar ao rei, substituída por uma outra composição que incluía os burgueses ligados às corporações de ofício e de comércio e os grandes financistas. O Estado feudal, marcado pela descentralização política, pela qual cada nobre era detentor de parte da soberania e tinha direito ao seu próprioexército, sua justiça, sua moeda e seu sistema tributário, cedia lugar ao Estado moderno, centralizado e unificado. Agora, a idéia de governo absoluto, totalmente estranha aos padrões medievais era a palavra de ordem. Na Idade Média, o poder era sempre limitado. O poder do rei limitado pelos grandes nobres, os dos nobres pelas imposições do costume, da tradição ou da “vontade de Deus”, que...
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