Lya luft

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  • Publicado : 31 de outubro de 2011
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Múltipla escolha
Há muitas maneiras de encarar a nossa existência: como um trajeto, um naufrágio, um poço, uma montanha. Tantas visões quantos seres pensantes, cada um com sua disposição: cética, otimista, trágica ou indiferente. Neste livro ela é um teatro, e um cenário com muitas portas, que estavam ali ou que nós desenhamos. Algumas só se abrem, outras só se fecham; outrasainda se escancaram sobre um nada. Quando abrimos uma delas — nossa múltipla escolha — é que se delineia a casa que chamamos nossa existência, e começam a surgir os aposentos onde vamos colocar mobília, objetos, janelas, pessoas, um pátio que talvez leve a muitos caminhos. Somos autores e personagens dessa cena complexa. Nos vestimos nos camarins, rimos ou choramos atrás dascortinas. Também vendemos entradas; às vezes vendemos a alma. Este pequeno ensaio fala sobre alguns mitos da nossa cultura, que, embora criados por nós, dificultam essa tarefa existencial. Fala também de audácia e fervor, e de alegria quando escapamos dessas armadilhas e nos construímos do jeito que dá. Utopia, romantismo ou real possibilidade, as primeiras páginas de cada livro entreabrema cortina: dos dois lados do palco, meu leitor e eu trocamos sinais. (Gramado, O Bosque)



Lya Luft Um palco para os mitos
Alguém me chama, bem atrás na plateia: um aceno, uma voz sumida parece dizer meu nome. (É alguém de óculos, pois as lentes refletem a luz do teto.) Posso responder, devo acenar de volta? Atrás de mim alguém veste os bonecos da vida e as estátuas da morte. Euforia emedo, é com eles que vou contracenar (ou é comigo mesmo?). Por cima do nariz de palhaço ajeito os meus óculos para ver melhor. “Viver é subir uma escada rolante pelo lado que desce”, disse alguém. Nunca esqueci: é sobre esse esforço de viver que eu escrevo há tantos anos. Humanos, portanto ambíguos, a imagem nos serve bem: para cima nos atraem novidades semprerenovadas, caminhos inimagináveis anos atrás, desafios que estimulam e assustam. Para baixo nos puxam as sombras do desencanto e da depressão, da acomodação, dos receios e do esquecimento na futilidade ou nas drogas, no álcool, nos medicamentos. A visão não é necessariamente derrotista: crianças sobem por esse lado invertido das escadas rolantes, e nós, mesmo não sendo crianças brincando(ou brigando), tentamos vencer os degraus do que chamamos existência. Mas a contradição faz parte de nós. Desejamos permanência, e destruímos a natureza. Nos consideramos modernos, e sufocamos debaixo dos preconceitos. Politicamente corretos, perdemos a naturalidade e o brilho. Onerados por crenças infundadas, carregamos na mala da culpa as pedras do medo.

 Múltipla escolha
Entre opostos tão diferentes como desejo de alegria e o peso de crenças sombrias (“a quem Deus ama ele faz sofrer”), entre ânsia de autonomia e o conforto da prisão, entre o desejo de progredir e a carência de líderes confiáveis, busca de saúde e lento suicídio nas drogas, nem sempre sabemos o que decidir, e muitas vezes nos deixamos levar. Medicados (a pressão, o peso, afadiga, a insônia, o sono, a depressão e a euforia, a solidão e o medo tratados a remédio), exasperados e indecisos, cedo recorremos a expedientes até para amar, porque nossa libido, quimicamente cerceada, falha; e a alegria, de tanta tensão, nos escapa. Nosso olhar é turvado por lentes que deformam. Comer e cozinhar tornaram-se um must, mas sentamos diante dos melhores pratosrecitando os prejuízos da comida: os quilos a mais, o colesterol, o açúcar no sangue. Alardeia-se o sexo como nunca antes, e nos julgamos liberadíssimos, mas as lendas sobre desempenhos nos causam medo. Cheios de remédios como vivemos, precisamos ressuscitar a libido com mais medicamentos. Moramos em edifícios e condomínios de luxo, os miseráveis morrendo de fome e frio ou drogas na noite das...
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