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Treinar o corpo, dominar a naturaza: Notas para uma análise do esporte com base no treinamento corporal*
Alexandre Fernandez Vaz**

RESUMO: O presente trabalho tem por objetivo apresentar algumas idéias sobre o tema do treinamento corporal e sua relação com o domínio da natureza. Para isso apresenta-se a teoria da formação do sujeito e da civilização desenvolvida por Theodor W. Adorno e MaxHorkheimer, sobretudo na Dialética do esclarecimento. A ênfase recai sobre o papel do sacrifício nesse processo, e a relação deste com o corpo. A partir daí procura-se entender o esporte, e dentro dele o treinamento corporal, com vistas a desenvolver uma análise daquele baseada na lógica sacrificial e na correspondente redução do corpo a uma naturalidade desqualificada e fungível.

Palavras-chave:Esporte, treinamento desportivo, dialética do esclarecimento, sacrifício, Adorno e Horkheimer, Escola de Frankfurt

Civilização e domínio da natureza
Faz parte das grandes teorias da civilização, e também do imaginário popular, a idéia de que as grandes conquistas da humanidade relacionam-se com o domínio da natureza, seja esta entendida do jeito que for.

*Este texto faz parte de umareflexão em andamento, e guarda forte conexão com outro, em vias de publicação, cujo título é “Na constelação da destrutividade: O tema do esporte em Theodor W. Adorno e Max Horkheimer”. O presente trabalho é dedicado a José Galisi Filho, a quem devo várias de minhas reflexões. ** Doutorando em ciências humanas e sociais na Universidade de Hannover, Alemanha, onde é bolsista da Capes; professorassistente I do Departamento de Metodologia de Ensino do Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Cadernos Cedes, ano XIX, nº 48, Agosto/99

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Todos aprendemos desde os primeiros anos escolares o quanto as conquistas (que muitas vezes poderiam ser chamadas de pilhagem) da civilização sobre a natureza foram importantes, forjando em nós, pouco a pouco, a idéia deuma irrenunciável superioridade humana. Não só nos relatos de viagens a mundos antes “desconhecidos”, onde habitavam os tipos humanos “primitivos” (que por sua vez conheciam o mundo que habitavam), “mais próximos da natureza”, mas também nas fronteiras do conhecimento científico, aprendemos que o ser humano é capaz de descobrir, classificar, controlar, prever, enfim, ter a possibilidade de sersenhor da natureza. Afinal, assim nos ensinam, somos os únicos animais racionais, capazes de fazer ciência. Muitos de nós ficamos encantados com tamanha superioridade. O mundo tornado cada vez mais complexo renova constantemente seu estoque de problemas a serem pesquisados, muito porque também as necessidades humanas tornam-se, sob múltiplos imperativos, cada vez mais nuançadas. Apesar disso, e desabermos que a ciência sempre tem respostas provisórias, não há como não perceber o seu avanço, condição fundamental do progresso , de tal forma importante que até mesmo se confunde com ele. O sentido da ciência, ao tentar levar ao limite aquilo que chamamos racionalidade, é, dito de forma geral, desencantar o mundo. A ciência pode equivocar-se, mas não pode deixar de ser racional. Ela pretende levaro pensamento racional até as últimas conseqüências, opondo-se a qualquer tipo de magia: manter-se secular, esclarecida e esclarecedora. A razão – e a ciência e a técnica por meio dela – pretende ser a forma privilegiada pela qual os seres humanos devem relacionar-se com a natureza. Como tal, ela exige como premissa que se encare a natureza como outro, objeto a ser conhecido e dominado. Não fosseesse processo fundador de nossa humanidade , não haveria aqui ninguém para contar a história. A sobrevivência humana está ligada a algum tipo de domínio da natureza que nos circunda. Não fosse essa capacidade – que também é necessidade e desejo –, certamente teríamos já há muito desaparecido do horizonte. Isso não quer dizer que a história da civilização seja produtora apenas de felicidade. Se...
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