Homem, cultura e sociedade

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O PAPALAGUI
Tuiávii, Chefe da Tribo Tiaveá na Polinésia, descreve aos seus compatriotas as suas impressões a respeito dos valores e do modo de vida do homem branco, observados durante uma viagem que fez à Europa. Papalagui somos nós, o branco, o estrangeiro, o "civilizado". Traduzido literalmente, é aquele que furou o céu. A importância desses textos está na possibilidade de se reflectir tantosobre o sentido que essas sociedades estabelecem com a natureza e entre si, como também na nossa própria relação com o trabalho.
  
Das arcas de pedra, das gretas de pedra, das ilhas de pedra e do que entre elas há

O Papalagui mora, como o mexilhão do mar, dentro duma concha dura. Vive entre pedras, como a escolopendra entre as fendas da lava. Tem pedras a toda a volta, de lado e porcima. A sua cabana assemelha-se a um baú de pedra posto ao alto; um baú cheio de cubículos e de buracos. Entra-se e sai-se da concha de pedra por um só e mesmo sítio. O Papalagui chama a esse sítio «entrada» quando entra na cabana, e «saída» quando sai, muito embora uma e outra sejam exatamente o mesmo. Há um grande batente de madeira que temos que empurrar com toda a força antes de poder penetrar nacabana. Mas isso é só um começo: somos obrigados a empurrar mais uns quantos batentes e só depois é que ficamos realmente dentro da cabana.
A maior parte das cabanas é habitada por maior número de pessoas do que as que há numa só aldeia de Samoa. E preciso, por isso, saber-se exatamente o nome da aíga que se quer visitar. Porque cada aíga ocupa a sua própria parte do baú de pedra, no cimo,em baixo ou a meio, à direita, à esquerda ou mesmo em frente. Além disso, na maior parte das vezes, uma aiga nada sabe da outra, mas mesmo nada, como se entre elas houvesse, não apenas uma parede de pedra, mas inúmeros mares. Muitas vezes mal sabem o nome das que lhes estão ao lado e quando se encontram, ao entrar para o abrigo, cumprimentam-se de má vontade ou zunem, quais insetos hostis, comose estivessem zangadas de se verem constrangidas a viverem perto uma da outra.
Quando uma aíga mora lá em cima, junto ao telhado da cabana, temos que trepar em ziguezague ou à roda, através de vários ramos, antes de chegar ao sítio onde o nome da aíga estiver escrito na parede. Vemos então uma graciosa imitação de um mamilo de mulher, o qual devemos premer até soar um grito que fará vir aaíga. Esta, graças a um buraquinho redondo e gradeado aberto na parede, vê se não se trata de um inimigo. Só depois abre. Reconhece-se um amigo, desprende logo um grande batente de madeira solidamente fechado a cadeado e puxa-o contra si, o que permite ao visitante entrar por essa fresta na cabana propriamente dita.
Esta é novamente cortada por inúmeras e rijas paredes de pedra e assim continuamos ainsinuar-nos de batente em batente, a passar de um baú para outro baú cada vez menor. Cada baú – a que o Papalagui chama “sala” – possui um buraco através do qual entra a luz, e se for grande, dois ou mais buracos. Esses buracos são tapados com vidro, que se pode afastar para fazer entrar ar fresco nos baús, coisa assaz necessária. Há, no entanto, muitos baús sem buracos para o ar e para a luz.Um Samoano depressa sufocaria num baú assim, onde não passasse ar fresco, como acontece em todas as cabanas de Samoa. Além disso, os cheiros da cabana-cozinha também têm que sair. O ar que vem de fora não é, em geral, melhor; é quase in-compreensível que um homem não morra em tal sítio, que o desejo de sair dali o não transforme em pássaro, que lhe não cresçam asas para poder tomar impulso elevantar vôo, rumo ao ar livre e ao sol.
Pois, mesmo assim, o Papalagui gosta dos seus baús de pedra e não se apercebe de quanto eles são mal-sãos.Cada baú tem o seu fim próprio. O baú maior e mais claro destina-se às da família ou ao acolhimento dos visitantes; há outro que serve para dormir. É aí que se põem as esteiras, isto é, que se as estende sobre um estrado de madeira com pés...
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