Filosofia merleau ponty

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ARTIGO SOBRE AS OBRAS DE MERLEAU PONTY

Entre a Filosofia e a Ciência: Merleau-Ponty e a Psicologia
Danilo Saretta Verissimo; Reinaldo Furlan
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto-SP, Brasil
RESUMO
Merleau-Ponty abordou um problema da tradição filosófica que se agudizou após o desenvolvimento das ciências humanas: a discordância entre a visão que o homem pode ter de si mesmo pelareflexão ou consciência e aquela que se obtém relacionando suas condutas às condições externas das quais elas dependem. Merleau-Ponty procurou resolver essa discordância à luz das próprias experiências das ciências, particularmente, da psicologia. Segundo ele, essas experiências demandam uma revisão da ontologia moderna. Neste contexto, no presente artigo, abordamos algumas facetas do diálogoestabelecido por Merleau-Ponty com a psicologia. Apresentamos uma leitura de questões tratadas, sobretudo em seus trabalhos iniciais.
Palavras-chave: Fenomenologia e psicologia. Epistemologia da psicologia. Merleau-Ponty.

 Introdução
Neste artigo, abordamos algumas facetas do diálogo estabelecido pelo filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961) com a psicologia, dado que, ao longo da sua obra,interrogou-a maciçamente, discutindo seus métodos, os seus alcances e a noção de ser que dela emerge. Apresentamos uma leitura de questões tratadas, sobretudo, em seus dois primeiros trabalhos, A Estrutura do Comportamento (Merleau-Ponty, 1942/1975) e Fenomenologia da Percepção (Merleau-Ponty, 1945/1999).
Entre a Filosofia e a Ciência
Em seus escritos, Merleau-Ponty privilegiou, sempre, o debatecom o legado cartesiano na filosofia e nas ciências. Abordou, fundamentalmente, um problema constante na tradição filosófica e que se agudizou após o desenvolvimento das ciências do homem, levando a uma crise do nosso saber e, ao mesmo tempo, da filosofia. Trata-se da discordância entre a visão que o homem pode ter de si mesmo pela reflexão ou pela consciência e aquela que se obtém ligando suascondutas às condições externas das quais elas, manifestamente, dependem. Em última instância, para Merleau-Ponty, tratava-se de compreender como o homem pode ser simultaneamente "sujeito" e "objeto" (Bimbenet, 2004).
Este problema é uma herança cartesiana, desde que o homem foi definido pelo mistério da união entre a alma e o corpo. Tal mistério foi radicalizado, elevado à altura de um mistérioespeculativo, uma verdadeira antinomia que deságua em dois pontos de vista irreconciliáveis sobre o ser: de um lado, o ponto de vista interior ou idealista da reflexão filosófica, de outro, o ponto de vista exterior ou realista da ciência. Dessa maneira, é possível afirmar que o legado de Descartes aos seus sucessores é um campo de conhecimento essencialmente problemático, pois uma ciência do homemteria que reunir um conjunto de ciências declaradamente irredutíveis: de um lado, aquelas da natureza física do homem, de outro, aquelas da substância pensante.
O divórcio radical, no século XIX, entre a filosofia e a ciência deve-se, justamente, ao fato destes dois protagonistas possuírem a mesma ambição. Tanto a filosofia espiritualista, quanto a ciência experimental, buscavam, sozinhas,totalizar o fenômeno humano, a primeira a partir do poder de animação do espírito, a segunda a partir do enraizamento fisiológico da consciência (Bimbenet, 2004).
Dessa forma, o tema antropológico, o fenômeno humano, aparece sob a forma de uma antinomia. Ele é inaugurado em meio a uma crise que afeta o saber. Japiassu (1977), referindo-se a esta crise, comenta que a antropologia, em seu sentido geral,passou a oscilar "(...) entre um conhecimento organicista e materialista do ser corporal e biológico do homem, e um saber espiritualista da vida psíquica, intelectual e moral da 'alma' humana, ligando os dois de modo mais ou menos bastardo no plano da objetividade" (p. 24).
Merleau-Ponty instalou-se nesta crise e buscou construir uma reflexão rigorosa que requeresse um saber crítico sobre a...
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