Cor e som: os musicos de potinare

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  • Publicado : 19 de novembro de 2011
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Resumo: este artigo pretende fazer uma interpretação da série Os músicos, de Candido Portinari, encomendada em 1942 por Assis de Chateaubriand para figurar no auditório da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Os oito painéis, por sua associação entre música, trabalho e “cor”, dada a centralidade do “negro”, permitem sugerir uma interpretação alternativa das análises canonizadas da obra de Portinarique, grosso modo, são diametralmente opostas: ora o pintor oficial do Estado Novo, ora o artista crítico. Mais do que apontar para uma das duas interpretações, busco mostrar que Portinari, em Os músicos, cria uma imagem do “negro” em consonância com discursos que, nos anos 1930 e 1940, buscavam instituir uma identidade brasileira fundada na positivação do mito das três raças. Ao mesmo tempo, oartista prima pela singularidade de suas composições, podendo sugerir ruídos. Para tanto, procuro fazer uma análise comparando os painéis primeiro entre si, ou com esboços e demais quadros de Portinari, mas também com outras fontes que versam sobre o mesmo tema: pinturas de Di Cavalvanti e Augusto Rodrigues; produções de cinema; teatro de revista; e canções de época, entre outras representações em que o“negro” e o samba ganhavam proeminência.



Palavras-Chave: Portinari, representação do negro, identidade nacional, samba, trabalho.

Introdução01:



Uma luz diminuta ilumina um quarteto de músicos. Ao centro, um negro sentado num caixote dedilha o cavaquinho com suas grandes mãos. A seu lado esquerdo, um clarinetista, em pé e com triste feição, sopra seu instrumento. À direita doprimeiro, também sem grande entusiasmo, um homem magro e alto, mas com dedos largos, pressiona os pistões de seu trompete. Logo abaixo, sentado no chão, com as pernas dobradas, o único músico branco do conjunto toca uma cuíca toda azul – tonalidade esta que predomina no quadro, de poucas gradações.

Chorinho é o nome da pintura de Candido Portinari descrita acima [fig. 1 no caderno de imagens]. Aúnica, aliás, além de Cavalo Marinho, salva do incêndio da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, em 1949 [fig. 2]. Fora esses painéis, havia outros seis, encomendados anos antes, em 1942, por Assis de Chateaubriand para figurar no auditório da emissora (reprodução completa da série segue no caderno de imagens). Sabemos como eram os outros painéis apenas por meio dos rascunhos de Portinari e de reproduçõesfotográficas em branco e preto. À primeira vista, nada mais apropriado que uma sériede pinturas batizada de Os músicos para compor o estúdio da Tupi. Não só porque naquela época a rádio fazia enorme sucesso com sua programação, que divulgava os sucessos da canção popular, como também porque os painéis de Portinari casavam bem com todo um imaginário da brasilidade, recém-forjado no período Vargase que se fazia sentir inclusive na programação da Tupi, como irei discutir adiante.

Há na série de painéis uma clara associação entre “cor” e música: o "negro” ocupa uma posição central, sendo retratado em primeiro plano, tocando instrumentos característicos do samba e do choro, tais como violão, cuíca, flauta e clarinete, em cenários como a favela, o carnaval e o estúdio de rádio, entreoutros. Ao que tudo indica, todos os quadros que compunham a série, até mesmo o painel Gaúcho [fig.8], abordam o cancioneiro popular sob a ótica de um ideário da contribuição do “negro”, do “indígena” e do “branco” na formação da sociedade brasileira. Entretanto, é preciso dizer logo de saída que não se trata de subordinar a obra de Candido Portinari a seu contexto imediato, mas de compreender esse“caso particular”02 em relação às mentalidades sociais de um determinado período (GINZBURG, 1990), não só como produto de uma época, mas também como produtor de tal contexto. Trocando em miúdos, trata-se de investigar como Portinari, diante de uma encomenda de Chateaubriand, “soluciona um problema” (cf. BAXANDALL, 2006), criando um retrato singular das relações raciais. Sendo assim, nutro a...
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