Contemporaneidade

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  • Publicado : 11 de abril de 2012
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Exercício sobre contemporaneidade

Em “O que é contemporâneo?”, Giorgio Agamben apresenta a tarefa difícil que leva o título do ensaio. Ser contemporâneo, entre inúmeros atributos é conseguir “enxergar no escuro” apesar das “luzes” de informações que nos cercam; e nesse exercício de percepção do obscuro nos será exigido habilidade e vontade.
Ao citar a tentativa (bem sucedida) de Nietzsche deser contemporâneo, Agamben mostra a necessidade do anacronismo, de não se encaixar perfeitamente com o seu tempo, de não estar de acordo pleno com ele, só assim é possível apropriar-se ativamente da sua época, da sua história, da sua contemporaneidade.
Claudia Fonseca vai mostrar que está à altura dessa exigência em seu livro “Família, Fofoca e Honra: etnografia das relações de gênero eviolência em grupos populares” liberando um rico conteúdo que estava, até então, no escuro. Na árdua tarefa que mostra seu estilo refinado de fazer com que o leitor se livre dos automatismos como “o pobre coitado” ou “família desestruturada” e trave uma batalha junto dela, contra o natural, o espontâneo.
Utilizando de maneira eficaz a etnografia, Claudia Fonseca exercita com o leitor a habilidade derelativizar, de suspender o juízo sobre algo. Mostra que ser contemporâneo não é aderir ao que está sendo convocado a aderir; ela estabelece uma relação singular com o tempo, de não aceitação imediata do que está colocado para nós, naturalizado; e mais ainda, colhe dados, os apresenta, relaciona com o teórico e apresenta suas conclusões (pouco conclusivas – um estilo dela de exercício decontemporaneidade, que mostra a coexistência de diversas formas de relação com o mundo) para nos fazer enxergar o obscuro.
Para enxergar aquilo que é escuro, Agamben vai lembrar que é necessário ter essa exigência de ser contemporâneo com você, para liberar elementos que não estão livres ainda, para tanto é necessário um estilo. Claudia Fonseca, todo o tempo, reforça seu estilo, a exemplo de seu modo deescrever, com uso reforçado de palavras como “mas”, “porém”, “todavia”, “entretanto”, para mostrar as diversidades e o caminho que ela optou escolher, reconhecendo que teve que abandonar outros caminhos, montando seu estilo para apresentar aquilo que quer defender.
No capítulo 3 de “Família, Fofoca e Honra” que leva o título de “A Vida em Sanduíche”, Claudia Fonseca mostra a importância do choque parase produzir ciência e para manter a pesquisa interessante, afinal é dessa forma que a autora diz se encontrar com ela mesma e mudar suas formas de entendimento do mundo. Ela confirma ter a exigência de ser o contemporâneo descrito por Agamben - não se encaixa perfeitamente com o seu tempo, faz uma pesquisa que vai contra a corrente do que é pedido em sua época e mostra todas as inverdades que nossão naturalizadas.
Longe de apresentar sentimentos da classe média que oscilam entre pena e raiva pelos pobres, Claudia Fonseca – mesmo sendo a pesquisadora de classe média que é – opta por investigar e analisar o comportamento daquelas pessoas as quais vai conviver por um tempo na Vila São João (antes também na Vila do Cachorro Sentado). Como uma excelente contadora de histórias, ela mais doque pesquisa, convive e busca atingir o ponto de vista daquelas pessoas, nos convencendo de forma refinada de que há outras formas de se viver no capitalismo, formas essas, antes vistas por nós, como “inapropriadas”, a exemplo disso quando ela apresenta a configuração de família baseada na consangüinidade que predomina nas classes populares em contrapartida com o modelo da conjugalidade da classemédia. De maneira leve ela vai nos convencendo de que esses meios de constituir famílias SÃO alternativos, e não mais variantes. Nos convence porque prova, a todo o momento, o que ela fala, com muitos dados empíricos, nunca separando teoria de empiria, sempre trabalhando as duas juntas, como uma pesquisadora que quer fazer ciência de verdade, uma ciência sem economia de detalhes, capaz de se...
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