Clarice lispector

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Perto do Coração Selvagem
Clarice Lispector
Editora Nova Fronteira 9ª Edição - 1980 Capa: Victor Burton Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

“Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida.” James Joyce

SUMÁRIO
PRIMEIRA PARTE O PAI... O DIA DE JOANA ...UM DIA... O PASSEIO DE JOANA ...A TIA... ALEGRIAS DE JOANA...O BANHO... A MULHER DA VOZ E JOANA OTÁVIO SEGUNDA PARTE O CASAMENTO O ABRIGO NO PROFESSOR A PEQUENA FAMÍLIA O ENCONTRO DE OTÁVIO LÍDIA O HOMEM O ABRIGO NO HOMEM A VÍBORA A PARTIDA DOS HOMENS A VIAGEM 4 4 8 14 19 21 27 32 52 57 77 77 83 87 98 103 119 123 132 142 149

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Perto do Coração Selvagem Este é o primeiro romance de Clarice Lispector, e talvez o que se tenha tornado mais famoso.Publicou-o, em 1944, pela Editora A Noite, quando não tinha mais que dezessete anos. Álvaro Lins, então o melhor crítico literário do país, manifestou-se imediatamente, não se furtando a escrever: "Nosso primeiro romance dentro do espírito e da técnica de Joyce e Virgínia Woolf" — autores que, de resto, Clarice ainda não lera e, segundo ela própria declarou depois, jamais viria a ler... Pode-sedizer que, desde Perto do Coração Selvagem até Um Sopro de Vida, os contos e romances de Clarice são momentos privilegiados — que se cristalizam, através das palavras, em obras — de uma 'inspiração' ininterrupta. Sobretudo porque, para ela, esta palavra não tinha nada a ver com o sentido meio esotérico de estado de alma abstrato em que a pessoa se deixa mergulhar e não é conscientemente responsávelpelo que faz. Para Clarice, inspiração era o conjunto inextrincável de situações existenciais e sociais em que ela se movia ora com amor, ora com ódio, ora com esperança, ora em desconsolo, e de onde, em permanente confronto consigo mesma, arrancava suas palavras, inventava suas ficções. Inspiração, portanto, não lhe aparecia como a fonte onde o poeta, ao beber, se aliena de si e do mundo.Inspiração era-lhe, ao contrário, o chão seco em que 'lavrava', à custa de muito suor, os seus textos. Sua técnica, embora (ou por isso mesmo...) toda intuitiva, já neste primeiro romance, é de um rigor implacável. Nada é 'contado', no sentido tradicional do termo, mas escrito: as situações e os personagens surgem através de metáforas, que se articulam ficcionalmente através do chamado fluxo da consciência.O enredo, a história provável, constrói-a quem lê; ou seja, a elaboração do 'romance' escapa do texto concreto para desafiar a imaginação do leitor, que se torna co-autor. Assim, aqui se põe em crise a representação do mundo com seus
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códigos unívocos; desmitifica-se a relação do homem com este mundo através destes códigos; desmonta-se a das pessoas entre si; repele todos os cânones dalinguagem que abala as estruturas em que tais comportamentos se ossificam; dilacera-se talvez o leitor, mas ao preço de abandonar a contemplação medíocre do espetáculo da vida apenas possível e transformar-se, coração selvagem tomado de alegria, num arquiteto do impossível...

***
P R I ME I R A P A R T E O PAI...
A MÁQUINA DO PAPAI batia tac-tac... tac-tac-tac... O relógio acordou em tin-dlen sempoeira. O silêncio arrastou-se zzz zzz. O guarda-roupa dizia o quê? roupa-roupa-roupa. Não, não. Entre o relógio, a máquina e o silêncio havia uma orelha à escuta, grande, cor-de-rosa e morta. Os três sons estavam ligados pela luz do dia e pelo ranger das folhinhas da árvore que se esfregavam umas nas outras radiantes. Encostando a testa na vidraça brilhante e fria olhava para o quintal dovizinho, para o grande mundo das galinhasque-não-sabiam-que-iam-morrer. E podia sentir como se estivesse bem próxima de seu nariz a terra quente, socada, tão cheirosa e seca, onde bem sabia, bem sabia uma ou outra minhoca se espreguiçava antes de ser comida pela galinha que as pessoas iam comer. Houve um momento grande, parado, sem nada dentro. Dilatou os olhos, esperou. Nada veio. Branco. Mas de...
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