Cien

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CONCEITO DE CIÊNCIA
Este é um bom começo para uma aula como esta. Na verdade um roteiro. O
que ensinar sobre os primórdios da ciência, e pior, com que visão ensinar
assunto tão importante e complexo?
A definição que conhecemos, e estamos habituados a reconhecê-la como
única, é que a ciência é um conhecimento cuja finalidade consiste em
descobrir as leis dos fenômenos. Ora esta é umadefinição positivista de
ciência. O que tentaremos passar alinha-se a uma outra abordagem: há uma
verdadeira descontinuidade no processo histórico das concepções
científicas. Existe em ciência o que Bachelard classificou como “corte
epistemológico”.
Nós médicos estamos em dupla desvantagem: a primeira é que fomos
convencidos, verdade que nem todos, de que o biocentrismo
contemporâneo (fruto de umareforma de apenas 90 anos, o que na história
do conhecimento humano não significa nada) é a única forma de raciocinar
em medicina.
A segunda é que apesar da lógica clínica desmentir muitos dos dogmas que
a ciência médica moderna nos impinge, continuamos acreditando que ela é
uma verdade.1
1

Antes deles, é necessário que se frise, alguns autores advertiam que havia uma grande probabilidadede
que as afecções de origem mental predispuzessem o corpo a adquirir suscetibilidades mórbidas. Mas
nem a abusiva citação do texto arquetípico, “Cármides” de Platão, no qual conclui que “os males do
corpo procedem da alma”, nem as referências aristotélicas que negavam que o corpo fosse reduzido a
“domicilium animae” (domicílio da alma) mas elevado `a condição de um composto substancialindissociável, foram suficientes para sensibilizar os médicos, ao menos durante milhares de anos. Havia
também a tendência em achar que as perturbações do corpo é que infligiam `a alma as piores e mais
nefastas penalidades, é o caso do filósofo judeu Philo quem afirmou que “perturbações freqüentemente
ofendem o corpo, e são as causas mais frequentes de melancolia”. O escritor e humanista inglêsRobert
Burton (1577-1640) revelava trechos da resposta da pergunta de Alexandre, sobre a consequência das
paixões: “Assim como o corpo trabalha sobre a mente, através de seus humores alterados, perturbando
o espírito e mandando fumos grosseiros para dentro do cérebro, e então, per consequens, perturbando a
alma, e todas as suas faculdades com medo, pena etc. os quais são os sintomas ordináriosdesta
enfermidade, assim por outro lado a mente trabalha sobre o corpo mais eficientemente, produzindo
através de suas paixões e perturbações, alterações milagrosas como melancolia, desespero,
enfermidades cruéis, e até mesmo a morte.” 1 É somente na última metade do XVIII, que o racionalismo
francês torna-se intelectualmente sensível para este problema, cronicamente negligenciado pela medicina.A suspeita do filósofo e pensador médico Cabanis (1757-1808) de que haveria uma estrita ligação entre

2 Paulo Rosenbaum

“O Físico e o Moral do Homem”1 caracterizou, ao menos formalmente, o início desta percepção. Esta foi
mais uma ousada explicitação que re-inspirou uma longa trajetória de reflexões, auxiliadas tanto pelos
impulso oferecido por Corvisart (1755-1821) em 1806 danecessidade imperiosa de atender o “homem
moral” e não só o “homem físico”, como pelo trabalho do principal discípulo de Barthez, Pinel, quando
afirma que as “neurosis são lesões do sentimento e do movimento, sem inflamação nem lesão da
estrutura”. Esta linha de investigação culmina finalmente com as pesquisas de Charcot (1825-1893)
quem, pioneiramente, dará um corpo mais consistente ao estudo dasmanifestações mentais, ao
demonstrar os múltiplos fenômenos da histeria, escandalizando a rigidez metodológica com sua praxis
empírico-demonstrativa no Hospital de la Salpêtrière. Charcot pergunta-nos, igualmente desconfiado, ao
ver ausência de lesão anatômica nos histéricos “Estes conjuntos sintomáticos privados de substrato
anatômico não se apresentam ao espírito do médico com a aparência de...
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