Cidade religiosa

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  • Publicado : 12 de outubro de 2012
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Coloquemo-nos, pois, em pensamento, no seio dessas antigas gerações, cuja lembrança não pode desaparecer inteiramente, ao legar as suas crenças e as suas leis às gerações seguintes. Cada família tem a sua religião, os seus deuses e sacerdócio. No isolamento religioso temos a sua lei; o seu culto permanece secreto. Mesmo na morte, ou na existência que se segue à morte, as famílias não seconfundem: cada família continua a viver à parte no seu túmulo, de onde se exclui todo estranho. Cada família tem também a sua propriedade, isto é, a sua parte de terra, que lhe está inseparavelmente agregada pela religião: os seus deuses Termos guardam-lhe o recinto e os seus manes velam por ela. O isolamento da propriedade torna-se de tal maneira obrigatório que dois domínios não podem confinar um com ooutro, devendo deixar entre si uma faixa de terra que a ninguém pertencesse e ficasse inviolável. Enfim, cada família tem o seu chefe, como qualquer nação teria o seu rei. Tem as suas leis, sem dúvida não escritas, mas gravadas pela crença religiosa no coração de cada homem. Tem a
sua justiça interna, superior à qual nenhuma outra há para que se possa apelar. Tudo aquilo de que o homem temrigorosa necessidade para a sua vida material, ou para a sua vida moral, a família possui. Não precisa de coisa alguma de fora; a família é um Estado organizado, uma sociedade que se basta a si própria.
Mas esta família do mundo antigo não se reduzia às proporções da família moderna. Nas grandes sociedades a família desmembra-se e diminui, mas na ausência de qualquer outra sociedade estende-se,desenvolve-se, ramifica-se, sem se dividir. Muitos ramos mais novos ficam agrupados em redor do ramo mais velho, junto do lar único e do túmulo comum.
Outro elemento ainda entrou na composição desta família antiga. A necessidade recíproca que o pobre tem do rico, e o rico do pobre, criou os servos. Mas nesta espécie de regime patriarcal servos ou escravos formam um todo. Concebe-se, com efeito, que oprincípio da prestação de serviço livre, voluntário, podendo cessar pelo capricho do servo, não possa conciliar-se com o estado social em que a família viva isolada. Além disso, a religião doméstica não permite a admissão de estranho na família. Era preciso, portanto, por qualquer meio, tornar o servo membro e parte integrante da família. Era o que sucedia, por espécie de iniciação do recém-chegadono culto doméstico.
Costume curioso, que subsistiu ainda por muito tempo nas casas atenienses, mostra-nos como o escravo entrava na família. Faziam-no aproximar-se do lar, colocavam-no em presença da divindade doméstica, derramavam-lhe água lustral na cabeça e faziam-no partilhar com a família alguns bolos e frutos207. Esta cerimônia tinha semelhanças com a do casamento e a da adoção. Sem dúvida,a sua significação estava no fato de o iniciado, estranho na véspera, passar a ser, para o futuro, membro da família e ter a sua mesma religião. Assim o escravo assistia às orações e tomava parte nas festas208. O lar protegia-o porque a religião dos deuses Lares lhe pertencia tanto como ao seu senhor209. Por isso o escravo devia ser enterrado no lugar da sepultura da família.
Mas precisamenteporque o servo adquiria o culto e o direito de orar, perdia por esse fato a sua liberdade. A religião era cadeia a retê-lo. Estava ligado à família por toda a vida e mesmo para o tempo que seguia à sua morte.
O seu senhor podia fazê-lo sair da baixa servidão e tratá-lo como homem livre. Mas o servo, por esse fato, não abandonava a família. Como lhe estava preso pelo culto, não podia, sem impiedade,separar-se da família. Sob o nome de liberto, ou com o de cliente, o servo continuava a reconhecer a autoridade do chefe ou patrono, e as suas obrigações para com o senhor nunca cessavam. O servo não podia casar sem a autorização do senhor, e os filhos nascidos do seu casamento continuavam obedecendo ao mesmo senhor210.
Formava-se assim na intimidade da grande família um certo número de...
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