Carlos Drumond de Andrade

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O AVESSO DAS COISAS
Aforismos
Carlos Drummond de Andrade
Editora Record
2ª Edição, 1990
Ilustrações: Jimmy Scott
Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap
www.portaldetonando.com.br/forumnovo/

Uma das frases mais conhecidas da sabedoria popular diz que "os
melhores perfumes estão contidos nos menores frascos". A frase não está
neste livro, que de certa maneira a corrobora. Umconjunto de máximas
com aparência de mínimas, O Avesso das Coisas (obra inédita de
Drummond) revela um poeta que tira do cotidiano não apenas o lírico mas
também o curioso, o imprevisível, o insólito.
Com a mesma acuidade do poeta, o humorista ou filósofo Drummond
mostra como "bater à porta errada costuma resultar em descoberta". Seu
modo pessoal de ver as coisas pelo lado avesso resultanum livro delicioso,
escrito à maneira de dicionários, com as definições mais improváveis e, por
isso mesmo, mais verdadeiras.
Vejamos alguns exemplos:
ALMA — Prisioneira do corpo, a alma vive em guerra com o carcereiro.
BRASIL — O Brasil é um país novo que se imagina velho, e um
país velho que se supõe novo.
CARTA — Quem gosta de escrever cartas para jornais não deve
ter namorada.
DIABO— É cada vez mais difícil vender a alma ao Diabo, por
excesso de oferta.
ELEIÇÃO — Uma eleição é feita para corrigir o erro da eleição
anterior, mesmo que o agrave.
FELICIDADE — A felicidade tem um limite, a loucura.
GLÓRIA — A glória é um alimento que se dá a quem já não pode
saboreá-lo.
HOMEM — Somos humanos, isto é, achamos que somos.
PECADO — Há pecados elegantes e outros que aspiram asê-lo.
REI — O rei nunca está nu no banho; cobre-se de adjetivos.
SOLIDÃO — A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.
TRADIÇÃO — A tradição é cultuada pelos que não sabem
renová-la.
UNANIMIDADE — A unanimidade comporta uma parcela de entusiasmo, uma de conveniência e uma de desinformação.
VELHICE — A vida é breve, a velhice é longa.
VIDA — Viver não é nada; continuar vivendo éque constitui ato
de bravura.

Assim como os antigos moralistas escreviam máximas,
deu-me vontade de escrever o que se poderia chamar de mínimas, ou seja, alguma coisa que, ajustada às limitações do
meu engenho, traduzisse um tipo de experiência vivida, que
não chega a alcançar a sabedoria mas que, de qualquer modo,
é resultado de viver.
Andei reunindo pedacinhos de papel onde estasanotações vadias foram feitas e ofereço-as ao leitor, sem que
pretenda convencê-lo do que penso nem convidá-lo a repensar
suas idéias. São palavras que, de modo canhestro, aspiram a
enveredar pelo avesso das coisas, admitindo-se que elas
tenham um avesso, nem sempre perceptível mas às vezes
curioso ou surpreendente.
C.D.A.

A

ACADEMIA
As academias coroam com igual zelo o talento e aausência dele.
ADÃO
Adão, o primeiro espoliado — e no próprio corpo.
ADMI ISTRAÇÃO
A administração, organismo autoritário, é feita
de papel, isto é, de figuração de coisas.
ADMIRAÇÃO
Às vezes sou tentado a me admirar, e isto me
causa a maior admiração.
ADULTÉRIO
o adultério há pelo menos três pessoas que se
enganam.

AFORISMO
O aforismo constitui uma das maiores pretensões da inteligência,a de reger a vida.
ÁGUA
Tudo é mais simples diante de um copo d'água.

ALEGRIA
ão é obrigatório ter motivo para estar alegre; o melhor é
dispensá-lo.

ALMA
Prisioneira do corpo, a alma vive em guerra com o carcereiro.

ALUCI AÇÃO
ossas alucinações são alegorias da realidade.

AMA HECER
O amanhecer é uma festa para convidados que estão dormindo.

AMBIÇÃO
Pouco importa o objetoda ambição; ela vale por si,
independente do alvo.
Sempre necessitamos ambicionar alguma coisa que,
alcançada, não nos faz desambiciosos.

Todas as ambições se parecem, mesmo que se contradigam; só a desambição não tem similar.

Para se alcançar um ideal, é necessário ter ambição, e ter ambição é perder de vista o ideal.
A ambição torna os homens audazes; a audácia
sem ambição é...