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OS CAPS: A REVOLUÇÃO SILENCIOSA DA SAÚDE MENTAL

Centros de Atenção Psicossocial espalhados pelo Brasil são um espaço terapêutico com cidadania por todos os lados Pedro Gabriel Delgado1 Uma mudança profunda está acontecendo na assistência pública em saúde mental no país. Ela vem de longe, desde o início dos anos 90, quando a sociedade foi atravessada pelo debate sobre o “fim dos manicômios”, eganhou força com a aprovação de uma lei nacional em 2001. Mas os últimos anos foram decisivos. Há um cenário novo, onde os grandes hospitais de longa permanência (como Juquery, Colônia Juliano Moreira, Doutor Eiras) estão sendo – de forma progressiva e cuidadosa, porém definitiva – substituídos por pequenas unidades abertas, imersas na própria comunidade, efervescentes de vida, ligadas à atençãoprimária de saúde e a leitos de hospitais gerais. Mudança tão grande não se faz sem polêmica e debate. A pergunta é: a proposta está funcionando, ela é melhor para a população que depende do SUS? Quem trabalha no campo da psiquiatria sabe que o desafio principal, num país do tamanho do Brasil, é assegurar o tratamento a todas as pessoas que sofrem com os chamados “transtornos mentais”. Esta é umadas áreas mais complexas da saúde pública, justamente porque a quantidade de homens, mulheres e crianças que precisam de ajuda se conta aos milhões. Para se ter uma idéia: numa cidade de 1 milhão de habitantes (como Campinas, São Gonçalo, Goiânia), 30.000 pessoas terão transtornos graves (psicoses, neuroses graves), precisando de atendimento permanente, às vezes diário; outras 100.000 buscarão, nospróximos 12 meses, um psiquiatra ou psicólogo ou outro profissional de saúde para uma consulta onde irão falar de sua aflição quase insuportável (ou sentirão muita necessidade de fazê-lo, podendo desistir, o que vai agravar muito seu sofrimento); milhares terão problemas muito graves com o consumo de bebidas; centenas apresentarão problemas mentais pelo uso de outras drogas, como a cocaína. Assimsão os números – gigantescos – que se apresentam como um desafio à saúde pública, neste campo do sofrimento mental. Afinal, o Brasil tem 14 cidades com mais de um milhão de habitantes, e 5.600 municípios, onde vivem os 186 milhões de brasileiros. 1/3

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Psiquiatra, coordenador de saúde mental do Ministério da Saúde

Mas a loucura – nome que se costuma dar às diversas formas como seapresenta este fenômeno radicalmente humano – é quase sempre silenciosa. Não se surpreendam: os “surtos”, os comportamentos extravagantes ou inconvenientes, o suicídio, a dependência grave que se torna um problema na família e no trabalho, todas estas situações são a ponta do iceberg, constituem o emergente singular de um fenômeno epidemiológico de vastas proporções, presente em todas as culturas, empaíses ricos e pobres, e indissociável da experiência humana sobre a terra. Eis aí um fato irrecorrível: o sofrimento mental é um problema de todos nós, a que todos estamos sujeitos; freqüentemente é insuportável, muitas vezes é trágico mas, na maior parte dos casos, costuma ser vivido silenciosamente, sem esperança de ajuda, sem demandar atendimento nos serviço, sem pressão sobre os governos. Éobrigação da sociedade e do Estado estender a mão aberta da rede de atenção, ouvir as pessoas que sofrem onde elas puderem falar, em sua própria vizinhança, apresentando-se de modo accessível e acolhedor. Esta é uma tarefa gigantesca, urgente e complexa, que não admite soluções mágicas e reducionistas. O Brasil enfrenta este desafio através da extensa criação de pequenos serviços comunitários de saúdemental, que se associam aos demais serviços da rede de saúde e fazem apelo à participação de toda a comunidade. Vale a pena conhecer como anda a implantação desta política. Os países que estão obtendo bons resultados na ampliação do atendimento em saúde mental são aqueles que adotaram a estratégia das redes de serviços locais, vizinhos dos pacientes, abertos, dinâmicos, com grande participação...
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