Arte, escola e valores sociais: possibilidades de encontro

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  • Publicado : 15 de novembro de 2011
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Arte, Escola e valores sociais: possibilidades de encontro

Prof. Dr. José Marinho do Nascimento

A conquista do supérfluo produz uma excitação espiritual
maior que a conquista do necessário.
O homem é uma criação do desejo, não uma criação da necessidade.
Gaston Bachelard

A arte é o triunfo sobre o caos.

John Cheever

Em que medida a Arte pode ser uma resposta à problemática dosvalores em nossa sociedade?

A resposta à pergunta acima não é simples nem fácil, a começar pela definição da palavra Arte, que sempre precisa de uma circunscrição. Para tanto, recorro a Calabrese (1987) que, depois das idas e vindas a definições propostas pelos dicionários italianos (não tão diferentes das dos dicionários de língua portuguesa), resume assim o seu objeto de estudo:[U]ma qualidade intrínseca a certas obras produzidas pela inteligência humana, em geral constituídas apenas de materiais visuais, que manifeste um efeito estético, leve a um juízo de valor sobre cada obra, sobre seu agrupamento ou sobre seus autores e que dependa de técnicas específicas ou modalidades de produção da própria obra (CALABRESE, 1987, p. 15).

Para o que pretendo discutir, adefinição é suficiente, mas a ela faço uma ressalva a fim de chamar a atenção para um agrupamento artístico importante, que é o ligado ao som.

A definição de Calabrese põe em relevo, sobretudo, os materiais visuais de que são feitas as obras de arte (o desenho, a linha, a cor, o volume, a textura, a palavra lida com os olhos, etc.). O som, por constituir-se de outra matéria, fica relegado a um(imerecido) segundo plano. Diante desta lacuna, incluo na definição de Arte do crítico italiano a expressão “materiais sonoros” e, assim, contemplo um número grande de manifestações que prescindem dos materiais visuais. É incontestável o fato de que se pode ouvir uma ópera, uma sinfonia, uma história etc. e fruir-se a obra por meio da audição.

Outra observação importante: para o propósito destepequeno ensaio (o de discutir a questão da Arte e sua relação com a docência, meu campo de atuação profissional), a literatura deve ser considerada como uma manifestação artística. E uma das mais significativas em se tratando de uma cultura escolar altamente livresca, como é o caso da brasileira.

Friso isto porque são inúmeros os títulos de obras de crítica de alto quilate que fazem umaseparação bem cristalina entre estas manifestações humanas. A título de exemplo, basta lembrar a já canônica História social da literatura e da arte (negritos meus), de Arnold Hauser. Depreende-se que, de um lado haveria a arte e de outro, a literatura. Sob o ponto de vista da capacidade de transformação do homem, os dois campos do conhecimento não podem sofrer esta separação. A literatura também é umamanifestação artística.

Voltando à pergunta inicial (Em que medida a Arte pode ser uma resposta à problemática dos valores em nossa sociedade?), repara-se que ela envolve uma série de questões correlacionadas que dividem os pensadores em pelo menos dois grupos: os que acreditam que a Arte cumpre uma função social e os que dizem que a Arte, ao se comprometer de alguma maneira com “a verdade doreal”, se aparta do seu caminho, que é o de estar sempre ligada a ela mesma, sempre assentada no campo do estético, sempre contornada pela dimensão do inefável.

Ao se mencionar o “social” – e ainda que pensemos em sociedade brasileira –, estamos nos referindo àquela matéria primordial de que se faz qualquer sociedade humana. Por isso, os valores sociais seriam os mesmos para qualquer sociedadecontemporânea. Ou seja, no Brasil, na Suíça, no Haiti, na Groelândia, ou numa aldeia indígena nos confins da África, um homem não pode matar a outro homem ou furtar-lhe um bem ou invadir-lhe a casa ou difamar-lhe ou não lhe reconhecer a igualdade humana.

Ao penetrarmos no mundo da Arte, penetramos no de dentro do próprio homem, ainda que isto não se explicite ou pareça impossível. Segundo...
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