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Sertão Nordestino, Desenvolvimento e População –Josué de Castro, Celso Furtado e o debate em torno da “Operação Nordeste”
Tayguara Torres Cardoso
Mestre em Ciências Sociais PPCIS/UERJ e-mail: tayguaratorres@ig.com.br

Em fins dos anos 50, voltava a ter as atenções da cena política brasileira a região sertaneja nordestina, palco das secas célebres. Em meio ao governo desenvolvimentista deJuscelino Kubitschek, uma grande seca, tragédia secular, se abatia novamente sobre os sertões e obrigava medidas enérgicas do governo para que se evitasse que levas e levas de sertanejos continuassem se retirando. Por esta mesma época, um grupo de agricultores da zona da mata pernambucana também chamaria a atenção da imprensa e do governo ao instituir as famosas ligas camponesas, concretizadas peloadvogado militante Francisco Julião, assustando os grandes proprietárias do Nordeste. É em meio a este clima tenso que Kubitschek institui a “Operação Nordeste” e posteriormente a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste(SUDENE) e que entra em cena um importante intelectual, cientista e homem público brasileiro, o economista paraibano Celso Furtado, idealizador e arquiteto dos planos dedesenvolvimento do Nordeste em geral e do sertão Nordestino em particular em fins dos anos 50. Os diagnósticos, as propostas desenvolvimentistas e os planos de desenvolvimento elaborados por Furtado e pelos organismos instituídos pelo governo suscitaram um grande debate dentro do campo intelectual desenvolvimentista, cujos intelectuais já vinham realizando debates e diagnósticos da situação brasileiradesde a década de 40. Dentro deste campo de debates e idéias um intelectual e homem público de projeção nacional e internacional se tornou um dos grandes interlocutores dos diagnósticos e planos de desenvolvimento de Furtado e da SUDENE, o médico, nutrólogo, geógrafo e sociólogo pernambucano Josué de Castro. Furtado e Castro realizaram diagnósticos sobre a região nordestina brasileira e seussertões e Furtado elaborou planos de desenvolvimento baseados em seus diagnósticos, concretizados no documento “Uma Política de Desenvolvimento para o Nordeste” em 1959. Nestes planos e diagnósticos emergem perspectivas particulares destes intelectuais sobre o sertão nordestino, reforma agrária, industrialização, emprego de mão-de-obra e população. Neste artigo, abordo os pressupostos, perspectivas ediagnósticos particulares presentes de Celso Furtado nos planos de desenvolvimento para o Nordeste em geral e para o sertão nordestino em particular em fins dos anos 50 bem como a interlocução , pressupostos e diagnósticos de Josué de Castro sobre a região. Esta abordagem se torna relevante no sentido de melhor iluminar 1

o campo de debate desenvolvimentista sobre o Nordeste bem como o caráter epressupostos que norteavam as políticas públicas voltadas para esta região e para seus sertões em particular e as conseqüências sócio-econômicas destas.

Sertões do Nordeste, lugares fluidos. Antes de entrar no debate entre Castro e Furtado propriamente dito, cabe aqui fazer algumas considerações sobre a região foco das preocupações destes dois intelectuais e com a qual eles têm, comomanifestaram em algumas ocasiões, uma ligação telúrica1. A região sertaneja nordestina se configura como um lócus prenhe de significações e visões que perpassam diversos campos como literatura, imprensa, ciência e senso comum, significações estas sempre permeadas pela aura criada historicamente em torno desta região interiorana onde se desenvolveu uma economia essencialmente pastoril. A noção de sertão,que não diz respeito só ao Nordeste e que é, a princípio, uma noção de lugar geográfico, vem historicamente acompanhada das idéias de diferenciação cultural e de distância. Apresentam-se recorrentemente junto à palavra “sertão” imagens de “longínquo”, muitas vezes de “terra ignota” - como Euclydes da Cunha chamava o sertão nordestino em Os Sertões – e do homem sertanejo como um “outro”, de...
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