O retrato por Andy Warhol

Páginas: 25 (6024 palavras) Publicado: 14 de dezembro de 2013
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Off register: o retrato por Andy Warhol
Fernanda Lopes Torres
Olhando as Marilyns e os Death Disasters, de Warhol, alertamos para sua “apresentação” do
individualismo contemporâneo. Sem tematizar celebridade/massa anônima, ele repete imagens
que, submetidas a nossa tendência de leitura linear, viram unidades temporais na tela. Daí uma
sensação física de tempo – encontro com oindivíduo que é cada um de nós.
Andy Warhol, individualismo contemporâneo, repetição, estrutura temporal.

“Business Art é o passo que vem depois da Arte. Eu
comecei como artista comercial e quero terminar como
Business Artist.”1 A conhecida ambição de Andy Warhol
coincide com perspicaz identificação da iminente saturação pública da arte como condição sine qua non para
a sobrevivência do artista.Imediatamente acomodado
à nova presença social da arte, ele reconhece sua impotência diante do que definitivamente não pode ser mudado. Exclamações monocórdias, não-edição das imagens, repetição do “exatamente o mesmo”: 2 táticas irônicas por meio das quais ele resiste à realidade dada
com a realidade dada. 3 Espécie de resignação lúcida a
partir da estrita adesão à lógica produção-consumoatravés da serigrafia, em que o artista confirma e repete,
reitera e anula o cotidiano ordinário, porque “quanto
mais você olha para a mesma coisa, mais o significado
vai embora, e melhor e mais vazio você se sente”.

Tuna Fish Disaster,1963
Serigrafia e acrílico sobre tela,
316 x 211cm, coleção Saatchi.
Fonte: Catálogo Andy Warhol:
rétrospective, Paris, Éditions du Centre
Pompidou, 1990Uma suposta desistência de existir, rápida e equivocadamente localizada na atitude blasé do artista, coincide com o contemporâneo cansaço de existir. “Não
gosto de tocar as coisas”: com sua linguagem característica, tão banal quanto precisa, Warhol detecta o fim
de um estado de corporeidade reflexiva nas imagens
incorpóreas, cada vez mais abundantes. O que num
primeiro momento parece opinião ouaversão pessoal
às coisas, consiste na “voz” de sua persona a dublar o
indivíduo contemporâneo, esgotado pelo esforço de
se ligar ao outro, cujos conteúdos privado e público –
assim como os seus próprios, é claro – encontram-se
em redefinição. Afinal, só se é em relação ao outro.
Sem a pretensão de reverter a dificuldade de se ligar
ao outro, ele a exagera, evidencia o torpor “produzido” nofrenético dia-a-dia através de seu trabalho diário, nas serigrafias.

A mancha gráfica warholiana
Andy Warhol multiplica a mesma fotografia em silkscreen duas, quatro, 16 vezes, numa única tela (Death
Disasters) ou em inúmeras (Marilyns), produzindo uma
pulsação serigráfica. Definida antes pela escolha do processo de reprodução do que por uma ação enérgica,
essa espécie de pintura éconstituída por falhas de impressão. Variáveis gráficas, imprevisíveis em suas particularidades, previstas, contudo, na fase de impressão
manual, promovem a ligeira sensação de mudança da
imagem ao longo das seqüências. A imagem é a mesma, mas parece diferente. Ao eximir-se de maior responsabilidade sobre a imagem final, o artista insiste no
choque do acidente ou no close-up da celebridade;
revela oevento irreversível pela repetição.
Na série dos acidentes, de 1964, a conjunção entre os
cinza-ópticos resultantes dos acontecimentos técnicos
inerentes ao processo (quantidade de tinta utilizada
ou alteração da pressão empregada durante a impressão) e a disposição seqüencial das imagens dá a ilusão
de movimento. A sensação é a da lenta tomada de
uma cena que, no entanto, não se desenvolveprogressivamente no tempo. Movimento contraditório,
pois não se confirma por nenhuma mudança no estado inicial da coisa retratada; estranha sucessão sem
causalidade que nos mobiliza num percurso ininterrupto
pela seqüência de imagens na (vã) busca do início e/
ou do fim do acontecimento. Persiste um único momento, ao qual forçosamente voltamos, em torpor alerta. Warhol nos obriga a...
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