O RELATO DE MULHERES SOBRE PARTOS E INTERVENÇÕES: REFLEXÕES SOBRE SAÚDE, DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA

Páginas: 31 (7720 palavras) Publicado: 16 de maio de 2014
O RELATO DE MULHERES SOBRE PARTOS E INTERVENÇÕES:
REFLEXÕES SOBRE SAÚDE, DIREITOS HUMANOS E CIDADANIA


Elaine Müller1
Laís Rodrigues2
Mariana Portella3
Camila Pimentel4
Daniella Gayoso5
Dandara Oniilari6
Roberta Pereira7
Marina Maria Silva8


RESUMO: Este trabalho é um desdobramento da pesquisa pautada nas narrativas de parto de mulheres e homens com diferentes experiências departurição, desenvolvida pelo grupo de pesquisa Narrativas do Nascer, vinculado ao Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE. Aqui se pretende refletir sobre a visão de mulheres que participaram de um grupo de apoio ao parto e nascimento humanizados realizado em Recife/PE, em relação às intervenções que elas e/ou outras mulheres foram submetidas ou conseguiram evitar durante o nascimento deseus filhos. Para tanto, foram utilizados relatos espontâneos fornecidos por essas mulheres durante um dos encontros promovidos pelo grupo do qual participaram durante a gravidez, cujo tema principal era “relatos de partos”.  Nota-se que tais mulheres buscam melhorar as condições de atenção ao parto e criticar a crescente desumanização do nascimento, recorrendo, muitas vezes, às discussões sobrea humanização em saúde, às recomendações da Organização Mundial de Saúde e à Medicina Baseada em Evidências. A argumentação desenvolvida tende a questionar o aumento de cesáreas eletivas e a construção da noção de risco em relação ao parto natural. Essa última é compreendida como modo de justificar o controle que, paulatinamente, passou a ser exercido sobre o corpo da mulher na gestação e parto, epode ser identificada pela transformação de um evento fisiológico em um acontecimento tecnocrático, marcado pelas diferenças em cada cultura. Isto possibilita o questionamento dos indicadores de saúde e de respeito aos direitos humanos, especialmente se articulados às noções de gênero.

PALAVRAS-CHAVE: gênero, direitos reprodutivos, parto e intervenções



INTRODUÇÃO

Este trabalho éfruto de algumas reflexões que têm sido feitas no grupo de pesquisa Narrativas do Nascer, vinculado ao Departamento de Antropologia e Museologia da UFPE, do qual as autoras fazem parte. Tais reflexões abordam os temas parto e nascimento enquanto eventos culturais, e com foco, principalmente, na perspectiva que as mulheres trazem sobre as suas experiências. Nesse sentido, os relatos de parto têmsuscitado uma série de questionamentos e alguns projetos de pesquisa e de extensão sobre os modelos de atendimento ao parto na contemporaneidade.
A antropóloga Robbie Davis-Floyd (2001) classifica como tecnocrático o modelo de assistência ao parto hegemônico no Brasil e em boa parte do mundo. Resultante da acumulação de uma série de mudanças, tal modelo encontra na masculinização da assistência,na medicalização e na hospitalização as suas características essenciais. Nele, a parturiente assume a condição de paciente fragilizada, perdendo autonomia e poder de decisão sobre a condução de seu trabalho de parto, entendido como um processo patológico e potencialmente perigoso (ROTHMAN, 1993; DAVIS-FLOYD, 2001).
A adoção de uma série rotineira de intervenções médicas visa agilizar o processode parturição, permitindo à equipe médica o máximo controle sobre os processos fisiológicos da mulher e do bebê. Em linhas gerais, é um modelo que supervaloriza a tecnologia médica em prol do que se convencionou acreditar que daria segurança aos pacientes (mãe e bebê) e controle sobre o sucesso do parto, deixando em segundo plano as particularidades, desejos e anseios da parturiente. Davis-Floyd(1992) vê nesse mecanismo a sedimentação de um senso de ordem cultural que avalia positivamente a transformação do parto – evento caótico, imprevisível e natural – em uma prática civilizada e regrada pela medicalização e por sua padronização protocolar.
Uma série de mecanismos são amplamente utilizados para a manutenção desse modelo hegemônico, de modo que hoje boa parte das mulheres já o...
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