O PROCESSO DE CRIOULIZA O DO REC NCAVO

Páginas: 73 (18045 palavras) Publicado: 24 de julho de 2015
O PROCESSO DE CRIOULIZAÇÃO
NO RECÔNCAVO BAIANO
(1750-1800)*
Luis Nicolau Parés**

N

as últimas décadas, na área dos estudos afro-americanos, vem ganhando centralidade o debate sobre o chamado processo de crioulização.
Diversas teorias foram elaboradas para interpretar os fenômenos de
hibridação étnica e cultural que resultaram do encontro de variados grupos africanos e europeus, mas, de modogeral, o debate surgiu e se desenvolveu a partir da análise das sociedades escravistas do Caribe e do Sul
dos Estados Unidos. Posteriormente, a atenção se deslocou para a África
enquanto espaço original da crioulização. Os estudos afro-brasileiros, desde
Nina Rodrigues, passando por Roger Bastide, até os trabalhos mais recentes de alguns historiadores, também têm se debruçado sobre as transformaçõesdas culturas e etnias africanas no Brasil.1 Porém, com exceção de
* Este ensaio apresenta resultados parciais do projeto de pesquisa intitulado “O processo de crioulização: antecedentes históricos da identidade negra na Bahia”, desenvolvido no Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia, e financiado por uma
bolsa de Desenvolvimento Científico Regional do CNPq.Agradeço aos membros da linha de
pesquisa “Escravidão e Invenção da Liberdade”, do Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal da Bahia (UFBA), e aos pareceristas de Afro-Ásia, pelos comentários e
sugestões sobre uma versão preliminar do texto.
**
Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal da Bahia.
1
Nina Rodrigues, Os africanos no Brasil, São Paulo,Companhia Editora Nacional, 1977 [1906];
Roger Bastide, Sociologia de la religión [Les religions africaines au Brésil], Gijón, Ediciones
Jucar, 1986 [1960]. Sobre etnicidades africanas na Bahia ver, por exemplo: M. Inês Cortes de
Oliveira, “Quem eram os ‘negros da Guiné’? A origem dos africanos na Bahia”, Afro-Asia, 19-20
(1997), pp. 37-74; João José Reis, Rebelião escrava no Brasil: a história doLevante dos
Malês em 1835 (edição revista e ampliada), São Paulo, Companhia das Letras, 2003; Luis Nicolau
Parés, “A formação do Candomblé: história e ritual da nação jeje na Bahia” (no prelo).

Afro-Ásia,33 (2005), 87-132

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autores como Bob Slenes, que aborda a questão em relação ao Sul do
país,2 a historiografia brasileira pouco tem pensado esse problema emtermos de crioulização. O conceito é criticável pela sua ambigüidade semântica e pelo seu uso indiscriminado, sobretudo no debate acadêmico norteamericano. Contudo, tentar inserir a problemática afro-brasileira nos
parâmetros conceituais de uma discussão internacional mais ampla, apesar dos entraves terminológicos, pode ser um desafio frutífero.
Este ensaio propõe abordar o processo de crioulização noâmbito
do Recôncavo baiano, no período colonial. Porém, antes de mais nada,
cabe distinguir uma dupla vertente do conceito: por um lado, o processo de
crioulização cultural (isto é, o processo de transformação a que estiveram
sujeitas as culturas africanas no Brasil) e, por outro, o processo de crioulização demográfica, ou seja, o crescimento da população crioula (crioulo
aqui entendido comoindivíduo negro de ascendência africana nascido no
Brasil). Essa diferença é analiticamente importante, porque embora ambos os processos estejam inter-relacionados eles não são paralelos, nem o
primeiro é resultado do segundo. As oscilações da demografia crioula e os
padrões das uniões entre crioulos e africanos — principal assunto deste
ensaio — condicionaram as possibilidades de transmissão dosreferentes
culturais e lingüísticos africanos e constituíram aspectos críticos do complexo processo de mudança cultural chamado crioulização. Apesar disso,
a influência cultural não se reduz a uma questão puramente demográfica.
Todavia a reflexão sobre essa interação deverá iluminar a compreensão da
divisão social que existia entre africanos e crioulos.
Será útil, inicialmente, apresentar alguns dos...
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