O Cemiterio Dos Vivos

Páginas: 114 (28420 palavras) Publicado: 24 de março de 2015
O Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto
Fonte:
LIMA BARRETO, Afonso Henrique de. Diário do hospício; o cemitério dos vivos. Rio de
Janeiro : Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação
Cultural, Divisão de Editoração, 1993, p. 95-179.
Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro
A Escola do Futuro daUniversidade de São Paulo
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Getulio Nascentes da Cunha – Brasília/DF
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O CEMITÉRIO DOS VIVOS
Lima Barreto

Quando minha mulher morreu, as últimas palavras que dela ouvi, foram estas, ditas em
voz cava e sumida:
- Vicente, você deve desenvolver aquela história da rapariga, num livro.
Ainda durou cerca de dois dias, mas quase sem fala. Balbuciavaunicamente; em geral,
não entendia o que queria por aí, mas pelos gestos e sinais que fazia.
Nas ocasiões em que me aproximava dela, nos seus últimos momentos, o seu olhar de
moribunda tinha uma doce e transcendente expressão de piedade. Era como se ela dissesse: “Vou
morrer!Que pena! Vou deixa-lo só por este mundo afora”.
Para o filho, que andava próximo dos quatro anos, não lobriguei nos seusolhos uma tão
profunda manifestação de comiseração. Não sei, não me recordo, se, logo após a sua morte, pusme a pensar nas suas palavras, a bem dizer as últimas, e no meu casamento e outros fatos
domésticos. Mas o certo é que elas me ficaram gravadas; e nunca mais se foi de mim a imagem
daquela pobre moça a morrer, com pouco mais de vinte e cinco anos, e o sentimento da dor que
se lhe estampava noolhar místico, por me deixar no mundo, dor que não era de mulher, mas de
mãe amantíssima.
O melhor é contar como foi o meu casamento, um pouco da minha vida, para que se
possa bem compreender por que esse espetáculo doméstico, em geral de tão pouco alcance,
trouxe para mim conseqüências desenvolvidamente dolorosas, um verdadeiro drama psicológico
e moral, que todas as satisfações posteriores nãopuderam dar termo na minha consciência, nem
tampouco o trabalho e o vício.

A minha história de casamento é singular. Vou narra-la. Como toda a gente, quis ser
“doutor” em alguma cousa. Não tendo quem me custeasse os estudos, logo pelos dezessete anos,
com uma falsa certidão de idade, fiz um concurso em uma repartição pública e obtive um
pequeno lugar de funcionário. Minha família vivia fora doRio de Janeiro; e eu, apresentado por
outro colega, fui morar na pensão da viúva Dias, à rua xxx. Conhestro e tímido, apesar de ter
vivido fora do ambiente doméstico, em internatos, no meio de meninos e rapazes desenvoltos,
nunca fui dada à sociabilidade feminina, muito menos a namoros, e sempre que, por esta
obrigação ou aquele obséquio, me impunham a tomar parte em sociedade de moças e senhoras,saía daí aborrecido. No dia seguinte, fazia um exame retrospectivo dos fatos da véspera e
verificava, com amargura e vexame, que tinha dado tal “rata”, tinha sido ridículo, por isso, por
aquilo, e jurava não mais me meter em semelhantes rodas.
Crente da minha irremediável inabilidade para tratar com damas de todo o jaez, evitavalhes o comércio o mais que podia. Se minha irmã me pedia, lá dondeestava, que comprasse
qualquer coisa em loja servida por moças, dava a encomenda a outrem, par executa-la, mediante
ou não gratificação. Até agora, ainda de todo não perdi essa cisma, pois evito comprar selos a
funcionários de saias.
Com esse gênio, não me agradou muito quando deparei na pensão uma moça de pouco
menos idade do que eu, vivendo familiarmente com os fregueses. Era Dona Efigênia, a...
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