O caso Dora

Páginas: 23 (5645 palavras) Publicado: 9 de abril de 2014
CADERNOS DE FILOSOFIA ALEMÃ

nº 11 | P. 83 - 98 | JAN-JUN 2008

O “caso Dora”: algumas considerações
acerca da sua redação
Ana Carolina Soliva Soria*

RESUMO:
O PRESENTE ARTIGO PRETENDE ANALISAR ALGUNS ASPECTOS EM QUE O TEXTO “FRAGMENTO DE UMA ANÁLISE DE
HISTERIA”, DE SIGMUND FREUD, AJUDA-NOS A COMPREENDER A RELAÇÃO ENTRE A INVESTIGAÇÃO CLÍNICA DO PSICANALISTA E A CONSTRUÇÃO DE UMATEORIA GERAL DO FUNCIONAMENTO PSÍQUICO.
PALAVRAS-CHAVE: FREUD, DORA, SEXUALIDADE, FANTASIA, SEDUÇÃO
ABSTRACT:
THIS ARTICLE AIMS AT EXAMINING SOME ASPECTS IN WHICH THE TEXT OF THE FRAGMENTS OF AN ANALYSIS OF HYSTERIA
(DORA) BY SIGMUND FREUD COULD HELP US TO UNDERSTAND THE RELATION BETWEEN CLINICAL INVESTIGATION AND
THE CONSTRUCTION OF A GENERAL THEORY OF PSYCHIC FUNCTIONING.
KEYWORDS: FREUD,DORA, SEXUALITY, FANTASY, SEDUCTION

Durante as duas primeiras décadas de seu trabalho psicanalítico, Sigmund Freud publicou cinco importantes casos clínicos. São eles:
“Fragmento de uma análise de histeria” (Bruchstrück einer HysterieAnalyse), de 1905, “Análise da fobia de um menino de cinco anos”
(Analyse der Phobie eines fünfjährigen Knaben), de 1909, “Observações sobre um caso de neuroseobsessiva” (Bemerkungen über einen
Fall von Zwangsneurose), de 1909, “Observações psicanalíticas sobre
um caso de paranóia descrito auto-biograficamente” (Psychoanalytische
Bemerkungen über einen autobiographisch beschreibenen Fall von
Paranoia), de 1911, e “Da história de uma neurose infantil” (Aus der
Geschichte einer infantilen Neurose), de 1918. Esses textos, que ficaram comumente conhecidoscomo “O caso Dora”, “O pequeno Hans”,
“O homem dos ratos”, “O caso Schreber” e “O homem dos lobos”, tratam
tanto da neurose quanto da psicose e se tornaram referência para qualquer pessoa que deseja estudar a arte analítica. Ora, cabe-nos aqui
perguntar por que Freud escolheu publicar esses casos. O que havia em
Dora ou em Hans que o levou a redigir seus históricos e a deixar de lado
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Doutoranda em filosofia pela Universidade de São Paulo e Bolsista CAPES/CNPq.

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30/5/2008, 13:01

O “CASO DORA”: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES...

ANA CAROLINA SOLIVA SORIA

tantos outros? Em princípio, poderíamos pensar que a condição para
expor um caso clínico é o sucesso alcançado com a terapia e a sua
infalibilidade, ou seja, os bons casos, os passíveis de serem publicados,seriam aqueles em que a terapia atingiu o seu fim e livrou o paciente de
seus males. Contudo, logo no início do “Fragmento de uma análise de
histeria”, Freud adverte o seu leitor:
Este histórico de apenas três meses é abarcável e memoriável;
mas seus resultados permaneceram incompletos em mais de um
ponto de vista. O tratamento não foi conduzido até a meta proposta, e sim interrompido pelavontade da paciente quando alcançado um certo ponto. Nesse momento, alguns enigmas do
caso da enfermidade ainda não tinham sido em nada apreendidos, outros clarificados somente de modo imperfeito, ao passo
que a continuação do trabalho certamente teria avançado em
todos os pontos até o último esclarecimento possível. Desse
modo, posso oferecer aqui apenas um fragmento (Fragment)
de umaanálise.1

O caso escolhido pelo pai da psicanálise para ser publicado encerrou-se prematuramente e não nos oferece resultados completos. Tratase de um fragmento (Bruchstück, Fragment) de uma análise. Ele foi incapaz de ajudar sua paciente, assim como tantos outros médicos que já
a haviam submetido a múltiplas terapias. E uma vez que o seu método
de tratamento (a saber: a associação livre) permite àenferma falar indiscriminadamente sobre todos os pensamentos que lhe sobrevêm e dirigir sua atenção de modo espontâneo para o passado ou o presente, seu
relato nos parece fracionado e espalhado por diversas épocas e contextos. Além disso, como nos admite no final do prefácio que escreve para
esse texto, Freud foi muito pouco hábil em descuidar-se da transferência2

1

Freud, S. “Bruchstück...
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