O Caldeirão

Páginas: 11 (2546 palavras) Publicado: 13 de novembro de 2014
Massacre de fiéis do Caldeirão faz 70 anos
O Sítio Caldeirão, do beato José Lourenço, foi
destruído em 1936, mas o massacre aconteceu só no
ano seguinte
Crato. 10 de maio de 1937. Um barulho quebrou o
silêncio da Chapada do Araripe, assustando os
camponeses. Com medo, eles tentavam se esconder
entre as árvores, enquanto aviões da Força Aérea
Brasileira cruzavam os céus do Cariri, no suldo
Ceará. Homens, mulheres e crianças se
embrenhavam de mata adentro a procura de uma
proteção. O desespero foi ainda maior quando os
aviões começaram a metralhar. Muitos ali devem ter
sussurrado o derradeiro Pai-Nosso e gritado: “Valeime meu Padim Ciço”... Outros nem tiveram tempo
de fazer a última oração. Embaixo, em terra firme, a
Polícia Militar do Ceará encenava a mais vergonhosapeça teatral. Destruía as últimas famílias
sobreviventes do Sítio Caldeirão, uma comunidade
religiosa, liderada pelo beato José Lourenço.

Capela do Sitio Caldeirão guarda
memória da saga de agricultores

liderada pelo beato Zé Lourenço
Do outro lado da serra, um jovem de 14 anos,
(Foto: Antônio Vicelmo)
acompanhado dos pais, assistia em silêncio, o
desmonte de seus sonhos, utopias eilusões construídas ao lado do beato, com muita
oração e trabalho. É o agricultor Antônio Inácio da Silva, hoje, com 85 anos, um dos
remanescentes da primeira investida dos policiais, em 1936, quando cerca de dois mil
sertanejos foram expulsos do Sítio Caldeirão. Naquela oportunidade não morreu
ninguém. “A Polícia acabou com tudo, mas, felizmente, nós estamos aqui para contar a
história”, lembraInácio, esclarecendo que a matança de gente aconteceu no ano
seguinte em cima da serra, na localidade denominada de “Mata dos Cavalos”, ou Serra
do Cruzeiro, e não no Caldeirão, como alguns escritores afirmam.
Ali sim, a Polícia deixou um rastro de sangue, incêndios e destruição de casas,
espancamento de crianças, mulheres e velhos, saques; e ainda, luta corporal de
populares usando facões,ferrões e cacetes contra soldados da Polícia bem protegidos;
mulheres enfrentando policiais armados de fuzis, homens furando cerco de rajada de
metralhadoras, execução de prisioneiros, fuzilamento. Foram mais de 300 corpos de
trabalhadores rurais estendidos, dados extra-oficiais, numa das maiores resistências
das populações camponesas nordestinas contra os proprietários rurais latifundiários.Inácio diz que, o beato anteviu o massacre. Ele advertiu que, “quando os aeroplanos
aparecessem, fazendo fumaça, todos se deitassem no chão, protegendo a cabeça”.
No início de 1937, as autoridades do Ceará receberam denúncias sobre o pessoal de
José Lourenço, que após a dissolução da comunidade vivia clandestinamente nas
matas da Chapada do Araripe. Corriam boatos de que ex-integrantes doCaldeirão,
chefiados pelo mensageiro Severino Tavares, atacariam o Crato.

Ciente disso, o capitão Bezerra e 11 soldados da Polícia de Juazeiro foram até lá para
checar as informações e entraram em conflito com um grupo de camponeses. Nesse
embate, morreram o capitão e três praças. Do outro lado, foram cinco perdas, entre
elas, Severino Tavares. Após a divulgação daquele conflito, fortescontingentes
militares partiram de Fortaleza à caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados
a vingar a morte do capitão Bezerra.
Retorno
Em 1938, José Lourenço retornou ao Sítio Caldeirão e ali permaneceu por dois anos,
até ser novamente expulso pelo procurador dos padres salesianos, proprietários da
fazenda. Seguiu então para Exu, no lado pernambucano da Chapada, onde montou
outracomunidade, no Sítio União, comprado com os 7 contos de réis recebidos como
indenização por uma parte dos bens do Sítio Caldeirão.
O advogado do beato tentou mover uma ação contra o Estado para recuperar a
totalidade das perdas do arraial do Caldeirão, todavia o pedido não foi atendido.
O beato José Lourenço morreu em 12 de fevereiro de 1946 no Sítio União, como vítima
de peste bubônica....
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