A superexploração do trabalho em economias periféricas e dependentes

Páginas: 39 (9696 palavras) Publicado: 12 de outubro de 2011
ESCRAVIDÃO, HERANÇA IBÉRICA E AFRICANA E AS TÉCNICAS DE MINERAÇÃO EM MINAS GERAIS NO SÉCULO XVIII
Andréa Lisly Gonçalves1 Universidade Federal de Ouro Preto (Professora Adjunta) Resumo: Nem sempre é possível avaliar, com o devido rigor, a origem das técnicas utilizadas na extração do ouro em Minas Gerais no século XVIII. A discussão não é recente, ainda que venha ganhando alento com o avanço dosestudos, não apenas sobre a História da África e a origem étnica dos escravos presentes nas minas, desde os períodos iniciais das atividades extrativas, mas também das repercussões dos sucessos dos espanhóis na mineração da prata na Nova Espanha e no Peru. O objetivo deste trabalho é o de procurar dimensionar, a partir da bibliografia existente sobre a história da mineração no continente africanoe na ibero América, de fontes oficiais, disponíveis em suporte digitalizados, como as do Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa e fontes impressas, a participação dos africanos escravizados, dos peritos europeus e do Novo Mundo na introdução de técnicas de extração do ouro na capitania de Minas Gerais. Palavras-chave: escravidão, técnicas de mineração, capitania de Minas Gerais, século XVIII.“Somente os joalheiros sabem distinguir os diamantes da Ásia dos do Brasil. As pedras de Golconda e de Visapur se caracterizam por uma alvura, por uma nitidez de brilho que não possuem as outras, cuja água encerra um tom amarelado que, por ocasião da venda, em igualdade de peso, as deprecia”. Honoré de Balzac. O contrato de casamento. A comédia Humana. Rio de Janeiro: Globo, 1989, v. IV. p.446. I.Introdução Em mais de uma passagem de A Comédia Humana, Balzac refere-se à inferioridade das gemas brasileiras em relação àquelas extraídas na Ásia. Pelo trecho citado, parece tratar-se de uma sutil diferença, só perceptível ao olhar experimentado dos joalheiros, mas suficiente, pelo menos na ficção, para depreciar o valor de mercado de nossas pedras2. A experiência com mineração fez parte dabiografia do autor, sócio em uma fracassada empresa de extração de prata, empreendida por romanos, na

Professora adjunta do Departamento de História da UFOP. Pós-doutoranda em História pela USP. "Aqui há muitos diamantes portugueses vindos do Brasil! Para mim isso não vale mais de cem mil francos”. O contrato de casamento. Honoré de Balzac. A comédia Humana. Rio de Janeiro: Globo, 1989, v. IV. p.447.2

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Sardenha3 no ano de 1838, o que empresta às suas observações, ainda que romanceadas, um pouco mais do que a verossimilhança. Já a cor pardacenta das primeiras amostras de "esmeraldas", mais tarde reconhecidas como turmalinas, enviadas do Brasil para Portugal, em meados do século XVI, e que não devem ter figurado em nenhum dote de casamento, seja na realidade, seja na ficção, nãochegou, por sua vez, a desanimar os ensaiadores e ourives da metrópole que atribuíam o aspecto baço das gemas à forma primitiva de sua extração. De acordo com Sérgio Buarque de Holanda: "O fato é que, mandadas amostras ao Reino, vinha constantemente o veredicto positivo dos entendidos: eram esmeraldas. E se acontecesse, como em geral acontecia, serem as pedras um tanto descoradas e foscas,atribuíam o defeito ao processo usado muitas vezes em sua extração, que era aquentarem-se ao fogo os cristais onde se incrustavam, até arrebentarem estes, soltando de si as gemas. Ou então ao fato de procederem das camadas superficiais, em que jaz a escória das melhores. E como as melhores ficavam nas entranhas da terra, o remédio era aprofundarem-se as escavações: então se achariam as pedras boas, tãoboas, luzentes e coradas, como as da Etiópia e do Peru"4. Ainda que mais tarde tenha-se demonstrado o engano, deliberado ou não, dos expertos lusitanos, o fato é que o método descrito não correspondia, mesmo à época, às formas mais elaboradas de separação da rocha do mineral. Além disso, a passagem é ilustrativa pela menção à qualidade das gemas exploradas na África e no vice-reino do Peru. Não...
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