A representação imagética da criança nos vários processos

Páginas: 14 (3337 palavras) Publicado: 23 de setembro de 2011
A representação imagética da criança nos vários processos históricos sociais e sua identidade ameaçada pela cultura globalizada
Kátia Maria Roberto de Oliveira Kodama1

Este trabalho propõe uma análise da representação imagética da criança e sua relação com conteúdo de ordem ideológica. Optou-se por uma apreciação da imagem infantil abarcando os períodos da Idade Média, do Renascimento, doBarroco, do Academicismo e do Realismo, para compreender o uso na contemporaneidade da imagética da criança como produto, descaracterizando-a, sem respeitar sua diversidade cultural. O objetivo é mostrar que, concomitantemente com um processo de transformação social, a saber - o de transição entre sociedade feudal, teocrática, rumo ao então emergente modo de divisão de classes moderno, burguês - aiconografia da criança recebeu tratamentos diferenciados, decorrentes do “espírito de época”, para fazer uso de uma expressão hegeliana. A partir de um contato com inúmeras estampas, dá-se conta da inexistência da representação infantil na arte medieval. Os temas – todos alegóricos e retratando o universo religioso, soberano da sociedade medieval – contam com actantes adultos apenas, inclusive noque diz respeito ao anjo e ao Menino - especial atenção dada a este, cuja representação se faz por um curioso tratamento: um adulto em miniatura encontrase no colo da Virgem, e não propriamente uma criança.

La Madonna in Maestà (Obra da Catedral, Sena)

Frontal de Santa Maria de Avia Museu de Arte da Catalunha, Barcelona

Referenciais historiográficos se fazem necessários para esclarecer odesconforto frente a tal constatação. De fato, durante o período da Idade Média não havia o sentimento em torno da infância do modo como concebemos hoje. Por “sentimento” referimo-nos ao conjunto de preocupações físicas, emocionais, sexuais e de conhecimento formal que hoje é dispensado à criança, um complexo de valores que se efetiva nos séculos XIX e XX. O processo de formação – lentíssimo, porsinal – desse universo infantil distinto do dos adultos, data do início do século XV, como será visto mais a seguir. Na Idade Média, tão logo a criança adquiria certa autonomia na linguagem, no desempenhar suas funções mais elementares, tais como: vestir-se, alimentar-se (por volta de seis a sete anos de idade), ela era imediatamente inserida no modo de vida dos adultos. Embora uma relação deternura, bem como um convívio através de brincadeiras e jogos entre adultos e crianças sempre tivessem existido, elas passam a participar, indiferentemente, com jovens e velhos, dos trabalhos cotidianos destes: colheitas, festas. A vida coletiva tomava todo o espaço de atuação das pessoas, na qual a criança tornavase companheira natural dos adultos, a família lhes transmitia conhecimentos práticos, masnão iam muito longe na sensibilidade. A não-distinção entre adultos e crianças na sociedade medieval - salvo nas primeiras fases da infância – possivelmente tenha levado ao modo de figuração, já referido, na arte de sua época. Vale ressaltar: é um engano julgar que a criança não tivesse qualquer valor ou status; simplesmente o modo de se olhar para esse ser em formação era outro. A sociedademedieval não possuía um conceito diferenciado de criança. Tratava-se, de fato, de um adulto reduzido. Outro detalhe das estampas que ilustra nossa afirmação são as vestes indiferenciadas, tanto as dos santos como as dos anjos e do Menino. Pode-se também notar que a expressão das faces é, sem dúvida, de adultos. No século XV, entretanto, mudanças significativas ocorreram. Resultantes de processostransformatórios germinantes já na Idade Média, direcionados para uma iminente cisão entre o poder papal e secular, entre o laico e o religioso, entre a Igreja e o Estado, entre a Ciência e o Dogma - dos quais a Reforma Luterana é conseqüência, as relações do homem com a Igreja começam a se afrouxar. Em decorrência, o homem inicia uma busca de si mesmo com bases na razão, no oficio e numa crescente...
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