A poesia satírica de Gregório de Matos

Páginas: 11 (2534 palavras) Publicado: 17 de junho de 2013
A poesia satírica de Gregório de Matos
O desengano barroco tem como uma de suas consequências o implacável gosto pela sátira. Resposta a uma realidade que os artistas julgam degradada, a poesia ferina e contundente não perdoa nenhum grupo social. Ricos e pobres são fustigados pelas penas corrosivas de Gôngora, de Quevedo, como mais tarde o fará o brasileiro Boca do Inferno. Esta ironia cáusticae por vezes obscena é traço marcante do barroco ibérico.
"O termo satyra surge da motivação etimológica do termo latino satura pelo grego satyros, identificação facilitada pelo fato de a satura latina ser uma mistura de discursos e o satyros grego ser também misturado, metade homem, metade bode." (HANSEN, 1989, p. 451)
A sátira é uma técnica literária ou artística que ridiculariza umdeterminado tema (indivíduos, organizações, estados), geralmente como forma de intervenção política ou outra, com o objetivo de provocar ou evitar uma mudança.
A poesia satírica de Gregório de Matos não tem unidade prescritiva de outros gêneros: é mista, mesclando alto e baixo, grave e livre, trágico e cômico, sério e burlesco. A sátira mistura tópicas variadas da invenção retórico-poética, amplificandoformas e procedimentos da elocução. As poesias satíricas de Gregório são carregadas de hibridismo, na mesma medida em que é construída de citações eruditas, de sentenças irônicas, de descrições hiperbólicas, de agudezas e vilezas de estilo baixo e sórdido.
Constitui-se também de sinédoques e profunda vocação dialógica. O dialogismo é definido como o processo de interação entre textos que ocorrena polifonia; o texto não é visto isoladamente, mas sim correlacionado com outros discursos similares. Este recurso promove um certo dinamismo no texto, possibilitando jogos entre os extremos.
Em "Epílogos", ele retrata a paisagem moral de Salvador, Bahia, nossa capital na época colonial. Mudando a palavra cidade para país, teremos a paisagem moral atual em alguns dos versos do poeta.

TEXTO IEpílogos

Que falta nesta cidade?...................................Verdade
Que mais por sua desonra ..............................Honra
Falta mais que se lhe ponha ...........................Vergonha.

O demo a viver se exponha,
por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?.................................. NegócioQuem causa tal perdição? ................................ Ambição
E o maior desta loucura?................................. Usura.

Notável desaventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?....................... Pretos
Tem outros bens mais maciços?........................ Mestiços
Quais destes lhe sãomais gratos?...................... Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?......................... Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas? ...........................Guardas
Quem as tem nos aposentos? ........................... Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
e a terrafica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda? ................................ Bastarda
É grátis distribuída? ......................................... Vendida
Que tem, que a todos assusta?............................ Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda,Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia? ........................................ Simonia
E pelos membros da Igreja? ............................. Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?......................... Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos Frades há manqueiras?........................... Freiras
Em que ocupam...
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