A POESIA BARROCA DE GREG RIO DE MATOS

Páginas: 10 (2321 palavras) Publicado: 11 de abril de 2015
A POESIA BARROCA DE GREGÓRIO DE MATOS
 Pode-se afirmar que o estilo barroco se configurou nos moldes da Contra-Reforma e dos Concílios de Trento (século XVI), tentando “conciliar a novidade renascentista com a tradição religiosa que vinha da Idade Média” (PROENÇA FILHO, 1973: 139), pois foram principalmente esses dois acontecimentos – continua –, que marcaram os princípios ideológicos do homemdaquele tempo, impondo-lhe “traços relevantes em pensamento, concepções sociais e políticas, arte e, naturalmente, religião.” (p. 140).
Reformatado, o pensamento cristão medieval reaparece no Barroco: o equilíbrio do homem medieval se transforma em conflito permanente, representado em jogo de oposições e contrastes.
“E de imediato se depreende que o Homem barroco se debate num conflito oriundodeste duelo entre espírito cristão e espírito secular, que leva a contrições como esta atribuída a Gregório de Matos”, continua Domício, exemplificando

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado
Da vossa piedade me despido,:
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.
 
Se basta a vos irar tanto um pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa que vos háofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.
 
Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:
 
Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;
Cobrai-me; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.

1 – O culto do contraste
Segundo Ronaldes de Melo e Souza, em “As máscaras de Gregório de Mattos” (SOUZA, 2000: 15), atravésdo fingimento, o poeta está sempre em contraste, inclusive consigo mesmo e com os princípios que defende:
Gregório de Mattos se comporta como persona ficta, ostentando várias máscaras, fingindo diversas vozes, representando, enfim, a proliferação indefinida de um ser que não cessa de ser outro. A heterogeneidade radical do poeta se manifesta nas múltiplas vozes (religiosa, erótica, lírica,jocosa, satírica, encomiástica), que presidem à gênese e ao desenvolvimento de sua obra essencialmente dialógica e polifônica. Argumenta-se que o conceito operatório do barroco, que é a dobra (le pli, Deleuze), constitui o fundamento histórico-cultural da obra gregoriana, que poeticamente se desdobra em fuga incessante e metamorfose contínua.
Assim, quase que antecipando Fernando Pessoa na criação deheterônimos [a terminologia talvez não seja a mais adequada], afirmando que “o poeta se despersonaliza para personificar outros eus”, Ronaldes de Melo e Souza acrescenta, na página seguinte:
Adriano Espínola levanta a hipótese de que o licenciado Rabello e o frei Lourenço Ribeiro são máscaras biográficas de Gregório de Mattos.
Nestas duas criações alonímicas, uma que o exalta e outra que o verbera,o riso de Gregório de Mattos atinge a culminância de uma bufoneria transcendental. Perfeito fingidor, o poeta finge, não somente a sua obra, mas também a sua vida pessoal, de persona convicta. E finge tão completamente, que chega a fingir duas máscaras simétricas e opostas: uma adjuvante e outra oponente. Esta mascarada biográfica representa dramaticamente a polaridade barroca do sublime e dogrotesco.
Não apresentaremos exemplo da obra de Gregório de Matos neste ponto porque o primeiro soneto transcrito é suficiente para ilustrar os referidos contrastes.
 

2 – Oposição do homem voltado para o céU ao homem voltado para a terra
Tratando de seu comportamento religioso, bem explícito nas peças de acusação e de defesa encontradas no processo inquisitorial que sofrera, pode-se concluir queProvavelmente a causa dessas visões antagônicas reside na própria figura do escritor, na ambigüidade, em termos de comportamento e crenças religiosas, entre a pessoa empírica e a persona poética. Se a primeira é capaz de falar “muitas coisas escandalosas”, como quer o acusador, ou de ser um “louco jocoso”, como o considera seu defensor, a segunda se mostra capaz de fingir uma devoção extrema, de um...
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