A Melancolia Do Mercosul

Páginas: 5 (1243 palavras) Publicado: 22 de abril de 2015
A melancolia do Mercosul
Em artigo, ex-ministro das finanças do Chile avalia por que Dilma Rousseff perdeu a chance de liderar um contrapeso moderado ao populismo da região
http://veja.abril.com.br/noticia/internacional/a-melancolia-do-mercosul 2014-08-07
Andrés Velasco

Dilma Rousseff, Nicolas Maduro e Cristina Kirchner se reúnem em Caracas, na Venezuela, para a cúpula do Mercosul (JorgeSilva/Reuters/VEJA)
Quando os líderes do Mercosul se reuniram em Caracas no final de julho, a arrogância habitual do imperialismo encheu o ar. Assim como o inconfundível cheiro de decomposição.
O Mercosul geralmente é descrito como um grupo comercial; na verdade, foi um arranjo político desde o início. O Brasil, a potência regional, sempre é visto como um contrapeso aos Estados Unidos em assuntos dohemisfério. Os governos peronistas na Argentina usam o Mercosul para fazer propaganda sobre integração ao mesmo tempo em que fazem pouco ou nada para remover reais entraves ao comércio. Com a entrada da Venezuela da Hugo Chávez, em 2006, a guinada em direção ao populismo tornou-se inconfundível. Como um ministro do governo chileno no fim da última década, lembro-me da frustração ao participar dereuniões do Mercosul (o Chile é membro associado). Eles são grandes em pose e em intermináveis discursos, mas limitados em acordos importantes sobre qualquer coisa.
Na Cúpula de 2006, em Córdoba, quando Chávez e Fidel Castro duelaram sobre quem poderia fazer o discurso mais longo e mais desconexo, os ânimos ficaram exaltados. A Bolívia, também governada por um populista carismático, estavainteressada em desenvolver laços mais próximos. O Equador logo seguiu o mesmo padrão. E um punhado de países menores da América Central e do Caribe caiu na linha política em troca de generosos aportes de dinheiro e petróleo venezuelanos. Naquela época, os líderes do Mercosul poderiam reivindicar a oferta de um "modelo de desenvolvimento alternativo" para a região. Não mais.
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No encontro em Caracas, o clima era fúnebre. O anfitrião, sucessor de Chávez, Nicolás Maduro, enfrenta uma economia em colapso e tensões dentro de seu próprio partido. Apesar dos preços relativamente altos do petróleo, a Venezuela tem um grande déficit fiscal e queda de reservas cambiais. A taxa de inflação é a mais alta da região e aeconomia está estagnada.
Perante a frustração popular com o agravamento das condições de vida, o governo de Maduro usou de repressão violenta para acabar com os protestos de rua. O líder da oposição Leopoldo López passou meses numa prisão militar antes de ser julgado. Instituições como a Human Rights Watch repetidamente denunciaram violações dos direitos e restrições das liberdades civis por parte dogoverno.
A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, chegou a Caracas na esperança de angariar apoio à sua luta contra os chamados fundos abutres que compraram títulos soberanos do seu país de forma barata e tiveram sucesso em seus processos reclamando o pagamento integral. Mas Fernández descobriu que as palavras de incentivo educadas dos seus colegas pouco importavam. A decisão daSuprema Corte dos Estados Unidos no mês passado de manter a decisão de um tribunal inferior contra a Argentina a colocou numa situação impraticável: pagar os credores resistentes significaria perder a credibilidade e possivelmente provocar uma onda de processos semelhantes; não pagar significaria inadimplência técnica e todos os seus custos. Ela escolheu a última opção.
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