A era do vazio

Páginas: 274 (68262 palavras) Publicado: 12 de novembro de 2014
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A Era do Vazio.

Gilles Lipovetaky

ÍNDICE
Prólogo 7
Sedução non stop

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A indiferença pura 33
Narciso ou a estratégia do vazio 47
Modernismo e pós-modernismo 75
A sociedade humorística 127
Violências selvagens, violências modernas 161

PRÓLOGO
Os artigos e estudos aqui apresentados colocam, todos eles, embora a níveis diferentes — e só
por isso se justifica a suapublicação em conjun to — o mesmo problema geral: a desagregação
da sociedade, dos costumes, do indivíduo contemporâneo da época do consumo de massa, a
emergência de um modo de socialização e de individualização inédito, em ruptura com o
instituído desde os séculos XVII e XVIII. E esta mutação histórica em curso que estes textos
se esforçam por evidenciar, considerando, com efeito, que o universo dosobjectos, das
imagens, da informação e dos valores hedonistas, permissivos e psicologistas que lhe estão
ligados geraram, ao mesmo tempo que uma nova forma de controlo dos comportamentos, uma
diversificação incomparável dos modos de vida, uma flutuação sistemática da esfera priva da,
das crenças e dos papéis, ou, por outras palavras, uma nova fase na his tória do individualismo
ocidental. Onosso tempo só logrou evacuar a escato logia revolucionária levando a cabo uma
revolução permanente do quotidia no e do próprio indivíduo: privatização alargada, erosão das
identidades so ciais, desafecção ideológica e política, desestabilização acelerada das perso
nalidades, eis-nos vivendo uma segunda revolução individualista.
Uma ideia central governa as análises que se seguem: à medida que associedades democráticas se desei a sua inteligibilidade revela-se à luz
de uma lógica nova, a que chamamos aqui o processo de personalização,
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Gil/es Lipovetsky A Era do Vazio
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sendo que este não pára de remodelar em profundidade o conjunto dos sec tores da vida social.
Sem dúvida, nem todas as esferas se reestruturam no mesmo grau ou da mesma maneira de
acordo com o processo em curso, enão ignoramos os limites das teorias que se esforçam por

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unificar o todo so cial sob a égide de um princípio simples, quando é manifesto que as nossas
sociedades põem em acção uma pluralidade de critérios específicos. Se, ape sar de tudo,
mántivemos a ideia de um esquema homogéneo, isso liga-se ao facto de que se tratava menos de
operar um levantamento instantâneo do momento actual doque das linhas de transformação, da
tendência forte que modela, à escala da história, as instituições, os modos de vida, as
aspirações e finalmente as personalidades. O processo de personalização procede de uma
perspectiva comparativa e histórica, designa a linha directriz, o sentido do que é novo, o tipo
de organização e de controlo social que nos arranca à ordemdisciplinar-revolucionáriaconvencional que predominou até aos anos cinquenta. Ruptura com a fase inaugural das
sociedades modernas, demo cráticas-disciplinares, universalistas-rigoristas, ideológicascoercivas, tal é o sentido do processo de personalização, que seria evidentemente redutor assi
milar a uma estratégia de reciclagem do capital, ainda que de rosto huma no. Quando um mesmo
processo anexa num movimento sincrónico oconjun to de um sistema, é ilusório pretender
fazê-lo assentar numa função local instrumental, mesmo que ele possa contribuir eficazmente
para a reprodu ção ou para o aumento da mais-valia. A hipótese aqui adiantada é outra:
trata-se de uma mutação sociológica global em curso, de uma criação histó rica próxima daquilo
a que Castoriadis chama uma «significação imaginária central», combinaçãosinérgica de
organizações e de significações, de acções e de valores, que se esboça a partir dos anos vinte
— apenas as esferas artísticas e psicanalíticas a anteciparam em alguns decénios — e cujos
efei tos não pararam de se amplificar a partir da Segunda Guerra Mundial.
Negativamente, o processo de personalização remete para a fractura da socialização
disciplinar; positivamente,...
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