A criança e a publicidade

Páginas: 11 (2638 palavras) Publicado: 29 de dezembro de 2012
A televisão, a criança, a publicidade

(do livro: Estratégias e Discursos da Publicidade, de Francisco Rui Cádima, Lisboa, Vega, 1997.

A criança e a televisão encerram na sua complexa interacção o segredo do paradigma mais generalizado da televisão clássica no que concerne ao modelo de criação do vínculo e do «consenso» social imposto como norma de conduta, como referente cultural, social ecomportamental. É

ffundamentalmente essa a questão que se deve colocar na abordagem da problemática entre a publicidade e a criança. De facto, como dizia Michel Souchon, «À travers la publicité, les objets s'animent, les mots se chantent, les gens mêmes sont mis à la portée des enfants et cherchent à satisfaire leurs désirs sur un ton fantaisiste et gai qui les amuse et les entraîne dans unmonde merveilleux. Comment n'en seraient-ils comblés? 1 ». A questão é esta: da mesma maneira que uma criança está desprotegida face à mensagem televisiva - dir-se-ia por um analabetismo audiovisual natural - também o chamado «grande público» da televisão sofre da mesma imunodeficiência, por assim dizer, face às televisões «tablóides» e a todo o tipo de sensacionalismo. De facto, a televisão e omundo da criança cruzam-se muitas das vezes de forma não tão equilibrada quanto seria desejável. A questão prende-se essencialmente com a criação pela TV de expectativas, de modelos comportamentais e normas de conduta absolutamente desapropriados em relação ao universo dos mais jovens. De facto, uma coisa é, por exemplo, a realidade 'publicitária' que a televisão dá a ver, e outra coisa bem diferenteé a realidade do mundo que nos rodeia.

1

L'Enfant devant la Télévision, Michel Souchon et altri, Casterman, Paris, 1979

Há que reconhecer que as relações da televisão com os telespectadores mais pequenos inserem-se num problema mais vasto que remete, no fundo, para a programação em geral e para as pequenas e grandes guerras de audiências que dominam a paisagem televisiva. Em particulartornam-se preocupantes as formas de violência, belicismo e sexismo que essa mesma programação assume frequentes vezes, designadamente na publicidade, na ficção televisiva, incluindo as novelas, e na informação. No caso da publicidade porque, no fundo, através dessa mitologia de sonhos e miragens, tudo se passa como se as inagens da publicidade construissem o melhor dos mundos a desfrutar. É toda umanova ordem simbólica que se cria - autêntico jogo à revelia do verdadeiro e do falso - em que a publicidade força a interacção da criança com o mundo do adulto, mostrando-lhe os modelos da sociedade da abundância através de uma lógica consumista que estrutura, de alguma forma, as expectativas das crianças desde o período pré-escolar até à fase em que a criança é mais receptiva à publicidade, aosseus códigos, e aos seus processos de sedução. Outra questão de enorme relevância - e que teima em manter-se - é o facto de os anúncios dirigidos às crianças continuarem a ser marcadamente sexistas, isto é, a publicidade destinada às crianças continua a separar os seus papéis por sexos, o que acaba por reprimir a partilha das experiências e dos diferentes papéis sociais tanto no processo dedesenvolvimento da criança como do jovem. Dados mais preocupantes referem inclusive que as crianças que vêem uma média de três horas e meia de televisão por dia, chegam a ver uma média de 100 spots publicitários por dia. Importa, portanto, dar mais atenção aos efeitos da televisão nas crianças e nos jovens. Sobretudo numa altura em que os estudos apontam, mesmo no caso português, para o facto de ascrianças passarem mais tempo perante a televisão do que a falar com os pais ou nos bancos da escola.

Outra é a questão da violência real do meio, aquela que advém do próprio dispositivo televisivo. Por exemplo, dificilmente se poderá encontrar maior violência na programação televisiva do que na habituação a modelos narrativos não contraditórios, circulares e fechados. Trata-se aí da redução da...
Ler documento completo

Por favor, assinar para o acesso.

Estes textos também podem ser interessantes

  • Advergames e Crianças: O Jogo da Publicidade
  • A influência da publicidade na vida de uma criança
  • Invasão à privacidade e publicidade para crianças
  • publicidade dirigida a criança
  • Artigo: publicidade com as crianças
  • PUBLICIDADE RESPONSÁVEL PARA CRIANÇAS
  • Publicidade abusiva contra a criança
  • Contribuição da psicologia para o fim da publicidade dirigida à criança

Seja um membro do Trabalhos Feitos

CADASTRE-SE AGORA!