A construção social da memória: o indivíduo e o tempo

Páginas: 9 (2219 palavras) Publicado: 11 de agosto de 2013
UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UNIRIO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM MEMÓRIA SOCIAL – MESTRADO
DISCIPLINA: ESTUDOS EM MEMÓRIA SOCIAL I
MESTRANDA: NILCINÉIA NEVES LONGOBUCO
1º SEMESTRE DE 2011


A CONSTRUÇÃO SOCIAL DA MEMÓRIA: O INDIVÍDUO E O TEMPO

INTRODUÇÃO
O presente texto tem por objetivo analisar a construção social da memória a partir das leituras dos textos Aconstrução social da memória moderna, de Luís Fernando Dias Duarte e Aspectos míticos da memória e do tempo, de Jean-Pierre Vernant. A análise desses textos nos permitirá refletir sobre a categoria da memória como fenômeno social e não somente psicológico, o que nos leva a pensar nas discussões sobre a memória individual e a memória coletiva1. Indivíduo e coletividade constituem categoriasimportantes a serem discutidas aqui, uma vez que a integração e inter-relação do indivíduo e com seu grupo, num tempo e num espaço, é o que promove as transformações no fenômeno da memória.

MNEMOSYNE E O TEMPO MÍTICO DOS GREGOS ARCAICOS
Mnemosyne, a deusa da memória e do esquecimento, na mitologia grega significa o nome de uma função psicológica: a memória. Há exemplos de outros deuses que tambémrepresentam outras funções, como sentimentos, paixões, atitudes mentais, qualidades e erros. Jean-Pierre Vernant destaca que Mnemosyne, inicialmente, se difere dos outros deuses, pois a memória é uma função muito elaborada que atinge grandes categorias psicológicas, como o tempo e o eu. Ela põe em jogo um conjunto de operações mentais complexas, e o seu domínio sobre elas pressupõe esforço,treinamento e exercício2. Ele destaca que os documentos que servem de base aos seus estudos sobre a história da memória3 tratam-se de representações religiosas, da divinização da memória e da elaboração de uma ampla mitologia da reminiscência na Grécia Arcaica. Nessa civilização de tradição puramente oral (entre os séculos XII e VIII), a memória ganha lugar de destaque, numa época na qual a escritaainda não havia sido difundida. É através das narrativas míticas, sobre Mnemosyne, que Vernant espera atingir alguns traços dessa memória arcaica e identificar certos aspectos de seu funcionamento4.
A mãe das Musas inspira o poeta, este, possuído por suas filhas, torna-se seu intérprete. Mnemosyne promove ao poeta uma sabedoria que se constitui pela onisciência divinatória, pois ela sabe e canta“tudo o que foi, tudo o que é, tudo o que será”5. O aedo, através dessa inspiração, vive a experiência de épocas passadas, vivencia o passado estando no presente: a memória transporta o poeta ao coração dos acontecimentos antigos, em seu tempo6. Na tradição poética, conservada de geração em geração, dava-se muita importância aos exercícios mnemotécnicos, ao treinamento da memória, como observa-se noexemplo do Catálogo7. Os Catálogos possibilitavam a fixação e transmissão de conhecimentos que leva ao entendimento do passado do grupo social. Vale ressaltar que o conhecimento transmitido pelo poeta não se configura por uma memória individual, mas sim de um grupo social8, como bem exemplifica o Catálogo. Ao listar dados sociais, que constituem a matéria das narrativas míticas, os Catálogospromovem a ordenação desse mundo mítico, no qual a busca pelas origens marca o passado como fonte do presente e não simplesmente como seu tempo antecedente:
Esta gênese do mundo, cujo decurso narram as Musas, comporta o que vem antes e depois, mas não estende por uma duração homogênea, por um tempo único. Ritmando este passado, não há uma cronologia, mas genealogias. O tempo está como que incluído nasrelações de filiação. Cada geração, cada “raça”, γένος, tem o seu próprio tempo, a sua “idade”, cuja duração, fluxo e mesmo a orientação podem diferir totalmente. O passado estratifica-se em uma sucessão de “raças”. Estas raças formam o “tempo antigo” (...).
(...) Em nenhum momento, a volta ao longo tempo nos faz omitir as realidades atuais. É somente em relação ao mundo visível que, ao nos...
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