a cabeleira maupassant

Páginas: 11 (2589 palavras) Publicado: 27 de agosto de 2013
A cabeleira

As paredes da cela eram nuas, pintadas a cal. Uma janela estreita e gradeada, aberta bem no alto de maneira que não se pudesse alcançá-la, iluminava aquela pecinha clara e sinistra; e o louco, sentado numa cadeira de palha, fitava-nos com um olhar fixo, vago e assombrado. Era muito magro, com as faces encovadas e o cabelo quase branco que se adivinhava embranquecido em poucosmeses. Suas roupas pareciam largas demais para seus membros secos, para o peito encolhido e a barriga afundada. Sentia-se aquele homem devastado, corroído por seu pensamento, por um Pensamento, como uma fruta por um verme. Sua Loucura, sua ideia estava ali, naquela cabeça, obstinada, insistente, devoradora. Ela consumia o corpo pouco a pouco. Ela, a Invisível, a Impalpável, a Inapreensível, aImaterial Ideia minava a carne, bebia o sangue, extinguia a vida.
Que mistério aquele homem morto por um Devaneio! Dava pena, medo e piedade, aquele Possuído! Que estranho sonho, medonho e mortal, habitava aquela testa que ele franzia em rugas profundas, permanentemente irrequietas?
O médico me falou: “Ele tem terríveis acessos de fúria, é um dos dementes mais singulares que já vi. É atacado por umaloucura erótica e macabra. Uma espécie de necrofilia. Aliás ele escreveu seu diário, que nos mostra da forma mais clara do mundo a doença de seu espírito. Ali, sua loucura está, por assim dizer, palpável. Se lhe interessa, pode folhear esse documento”. Segui o doutor até seu gabinete, e ele me entregou o diário daquele homem miserável.
“Leia”, disse, “e você me dirá sua opinião.”
Eis o quecontinha aquele caderno:

Até meus trinta e dois anos, vivi tranquilamente, sem amores. A vida me parecia muito simples, muito boa e fácil. Eu era rico. Gostava de tantas coisas que não conseguia sentir paixão por nada. É bom viver! Eu acordava feliz, todos os dias, para fazer coisas que me davam prazer, e me deitava satisfeito, com a confiança serena do dia seguinte e do futuro sem preocupações.Eu tive algumas amantes sem nunca ter sentido o coração enlouquecido de desejo ou minha alma despedaçada de amor após a posse. É bom viver assim. Amar é melhor, mas terrível. Ainda, aqueles que amam como todos mundo devem experimentar uma ardente felicidade, menor que a minha talvez, pois o amor veio me encontrar de uma maneira incrível.
Sendo rico, eu ia atrás de móveis antigos e de velhosobjetos; e com freqüência pensava nas mãos conhecidas que já haviam apalpado aquelas coisas, nos olhos que as admiraram, nos corações que as amaram, porque a gente ama as coisas! Muitas vezes ficava durante horas, horas e horas, a olhar um pequeno relógio do século passado. Ele era tão engraçadinho, tão bonito, com seu esmalte e seu ouro cinzelado. E ainda funcionava como no dia em que uma mulher ocomprar no êxtase de possuir aquela fina joia. Ele não tinha cessado de palpitar, de viver sua vida mecânica, e continuava sempre com seu tiquetaque regula, havia um século. Quem o usara pela primeira vez sobre o seio na mornidão das roupas, o coração do relógio batendo contra o coração da mulher? Que mão o segurara na ponta dos dedos um pouco quentes, virara-o e desvirara, depois enxugara ospastores de porcelana, por um segundo embaçados pela transpiração da pele? Que olhos espreitaram aquele mostrador florido a hora esperada, a hora querida, a hora divina?
Como eu gostaria de conhecê-la, vê-la, a mulher que tinha escolhido aquele objeto raro e delicado! Ela está morta! Sou possuído pelo desejo de mulheres de outrora; amo, à distância, todas aquelas que amaram! A história das ternuraspassadas me enche o coração de saudade. Oh! a beleza, os sorrisos, as carícias jovens, as esperanças! Tudo isso não deveria ser eterno?
Como chorei, durante noites inteiras, pelas pobres mulheres de antigamente, tão belas, tão ternas, tão doces, cujos braços se abriram para o beijo e que morreram! O beijo, este é imortal! Ele vai de lábio em lábio, de século em século, de era em era. Os homens...
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