Vivemos tempos assustadores precisamos de conceitos assustadores P BLICO

Páginas: 15 (3662 palavras) Publicado: 26 de julho de 2015
ENTREVISTA

“Vivemos tempos assustadores,
precisamos de conceitos
assustadores”
VANESSA RATO  22/12/2014 ­ 06:10

Charles Esche, director do conhecido Van Abbemuseum, acha que o
império da arte pela arte acabou. É preciso uma arte útil, diz ele, uma arte
que possa liderar o processo de reconstrução do Estado, hoje em ruína.Charles Esche foi este ano um dos comissários da Bienal de São Paulo MIGUEL MANSO

Na conferência que na semana passada deu na Fundação Calouste
Gulbenkian, Charles Esche comparou o descalabro do conceito de Estado na
Europa a uma cidade após um terramoto de grande escala: num edifício
tudo parece intocado e a funcionar, o prédio ao lado, porém, foi­se –
abrimos a porta e percebemos que a fachada guarda apenas uma ruína, um
buraco cheio de escombros.Isto já aconteceu, constatamo­lo todos os dias, a cada passo. Agora resta
reinventar. E Esche acha que os museus e teatros podem tomar as rédeas
desse processo. Os tempos da arte pela arte acabaram – é preciso uma “arte
útil”, diz ele. Um demagogo? O que ele diz é: “Eu sei que pareço um marxista
enfurecido, mas não sou, sou apenas realista.” 

Há dez anos à frente do conhecido Van Abbemuseum, de Eindhoven, naHolanda, e um dos responsáveis pela Afterall Publishing, que fundou em
1998 com o artista plástico Mark Lewis, Esche
(http://new.livestream.com/fcglive/20141216lugares/videos/71357280) foi
este ano um dos comissários da Bienal de São Paulo
(http://www.publico.pt/n1668691), depois de ter feito a de Gwangju (2002)
e a de Istambul (2005). Fundador, em 2010, da Internationale, umaconfederação de museus europeus, foi apontado pelo Center for Curatorial
Studies do Bard College como o bolseiro de 2014 do Audrey Irmas Award for
Curatorial Excellence, antes atribuído, por exemplo, a Harald Szeemann,
Catherine David, Okwui Enwezor ou Lucy Lippard.
A grande afirmação da sua conferência foi que instituições de
caracter artístico como museus e teatros podem e devemassumir­se como os grandes agentes da reinvenção do Estado. O
que levanta antes de mais a pergunta: em que sentido é que o
Estado precisa de ser reinventado? Como director de museu, que
diagnóstico faz do actual estado do Estado?  
Claramente, o Estado, ou os Estados, entraram em crise existencial. Uma
crise de um tipo que já não se via há bastante tempo – provavelmente desdeo fim do século XVIII, com o nascimento do conceito de Estado­nação. Diria
que a combinação do projecto europeu com a globalização do capital e a
perda de soberania – que é muito clara em Portugal mas é visível por todo o
lado desde o início da actual crise, em 2008 – produziu um desafio
fundamental: a ideia de Estado, tanto em termos de estrutura identitária,
como em termos económicos e de estrutura social, que define um grupo depessoas como cidadãos e lhes atribui direitos e responsabilidades, essa
noção de Estado – que até certo ponto nasce da Revolução Francesa, mas
que também deriva do estabelecimento da social­democracia na Europa do
pós­guerra e que foi o modelo até agora dominante na Europa –, está
ameaçada. Não é um fim que se possa propriamente celebrar. Em muitos
sentidos, torna a vida mais difícil. Mas, através de várias manipulações efracassos da social­democracia – manipulações através dos mass media,
mas também fracassos do próprio Estado – a ideia de Estado parece, de
facto, em decadência. E não vejo forma de que possa ser salvo de si mesmo
na forma que até agora lhe conhecíamos. Os objectivos desse Estado talvez
ainda se possam salvar. Mas é preciso que sejam traduzidos para novos
suportes.
A que fracassos se refere?Ao fracasso do Estado em se adaptar a contextos e necessidades em
mutação, ao fracasso do modelo do Estado providência, dos serviços
nacionais de saúde, da ideia de que a cidadania é partilhada pelas pessoas e
que, portanto, todas têm certos direitos, a própria ideia dos direitos que

derivam de uma cidadania e dos deveres que lhe estão associados... No...
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