Via Láctea

Páginas: 13 (3128 palavras) Publicado: 30 de outubro de 2014
Olavo BilacVIA-LÁCTEA
I
Talvez sonhasse, quando a vi. Mas viaQue, aos raios do luar iluminada,Entre as estrelas trêmulas subiaUma infinita e cintilante escada.E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cadaDegrau, que o ouro mais límpido vestia,Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,Ressoante de súplicas, feria...Tu, mãe sagrada! vós também, formosasIlusões! sonhos meus! Íeis por elaComo um bandode sombras vaporosas.E, ó meu amor! eu te buscava, quando Vi que no alto surgias, calma e bela, O olhar celeste para o meu baixando...
II
Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura,Me ouves agora com melhor ouvido:Toda a ansiedade, todo o mal sofridoEm silêncio, na antiga desventura...Hoje, quero, em teus braços acolhido,Rever a estrada pavorosa e escuraOnde, ladeando o abismo da loucura,Andei depesadelos perseguido.Olha-a: torce-se toda na infinita Volta dos sete círculos do inferno... E nota aquele vulto: as mãos eleva,Tropeça, cai, soluça, arqueja, grita, Buscando um coração que foge, e eterno Ouvindo-o perto palpitar na treva.
III
Tantos esparsos vi profusamentePelo caminho que, a chorar, trilhava!Tantos havia, tantos! E eu passavaPor todos eles frio e indiferente...Enfim! enfim!pude com a mão trementeAchar na treva aquele que buscava...Por que fugias, quando eu te chamava,Cego e triste, tateando, ansiosamente?Vim de longe, seguindo de erro em erro, Teu fugitivo coração buscando E vendo apenas corações de ferro.Pude, porém, tocá-lo soluçando...E hoje, feliz, dentro do meu o encerro,E ouço-o, feliz, dentro do meu pulsando.
IV
Como a floresta secular, sombria,Virgem do passohumano e do machado,Onde apenas, horrendo, ecoa o bradoDo tigre, e cuja agreste ramaria
Não atravessa nunca a luz do dia, Assim também, da luz do amor privado,Tinhas o coração ermo e fechado, Como a floresta secular, sombria...Hoje, entre os ramos, a canção sonora Soltam festivamente os passarinhos. Tinge o cimo das árvores a aurora...Palpitam flores, estremecem ninhos... E o sol do amor, quenão entrava outrora, Entra dourando a areia dos caminhos.
V
Dizem todos: "Outrora como as avesInquieta, como as aves tagarela,E hoje... que tens? Que sisudez revelaTeu ar! que idéias e que modos graves!Que tens, para que em pranto os olhos laves?Sê mais risonha, que serás mais bela!"Dizem. Mas no silêncio e na cautelaFicas firme e trancada a sete chaves...E um diz: "Tolices, nada mais!"MurmuraOutro: "Caprichos de mulher faceira!"E todos eles afinal: "Loucura!"Cegos que vos cansais a interrogá-la!Vê-la bastava; que a paixão primeiraNão pela voz, mas pelos olhos fala.
VI
Em mim também, que descuidado vistes, Encantado e aumentando o próprio encanto,Tereis notado que outras cousas canto Muito diversas das que outrora ouvistes.Mas amastes, sem dúvida... Portanto,Meditais nas tristezas quesentistes:Que eu, por mim, não conheço cousas tristes,Que mais aflijam, que torturem tanto.Quem ama inventa as penas em que vive:E, em lugar de acalmar as penas, antesBusca novo pesar com que as avive.Pois sabei que é por isso que assim ando:Que é dos loucos somente e dos amantesNa maior alegria andar chorando.
VII
Não têm faltado bocas de serpentes,(Dessas que amam falar de todo o mundo,E a todoo mundo ferem, maldizentes)Que digam: "Mata o teu amor profundo!Abafa-o, que teus passos imprudentesTe vão levando a um pélago sem fundo...Vais te perder!" E, arreganhando os dentes,Movem para o teu lado o olhar imundo:"Se ela é tão pobre, se não tem beleza, Irás deixar a glória desprezada E os prazeres perdidos por tão pouco?Pensa mais no futuro e na riqueza!"E eu penso que afinal... Não pensonada:Penso apenas que te amo como um louco!
VIII
Em que céus mais azuis, mais puros ares,Voa pomba mais pura? Em que sombriaMoita mais nívea flor acaricia,A noite, a luz dos límpidos luares?Vives assim, como a corrente fria,Que, intemerata, aos trêmulos olharesDas estrelas e à sombra dos palmares,Corta o seio das matas, erradia.E envolvida de tua virgindade, De teu pudor na cândida armadura,...
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