Venenos de deus remédios do diabo

Páginas: 8 (1892 palavras) Publicado: 17 de maio de 2012
“Venenos de Deus, remédios do Diabo”:
onde ser branco é uma questão de língua

Viegas Fernandes da Costa

O escritor moçambicano Mia Couto galgou a condição de autor reconhecido pela inventividade e bricolagem vocabular dos seus textos. Das páginas dos seus livros brotam palavras e expressões que mesclam o português de Portugal com o português moçambicano e com as línguas nativas do seupaís, bem como neologismos próprios da literatura oral. Este aspecto, recorrente em sua obra, somado aos usos do folclore, dos mitos e das lendas moçambicanos, permite situar a proposta literária de Mia Couto nas proximidades das propostas empreendidas por Guimarães Rosa e Mário de Andrade (o Mário de Macunaíma). Sob o aspecto ideológico, sua obra quer pensar e problematizar a construção da identidadenacional no Moçambique – país recentemente saído da guerra civil e, tal qual a maior parte dos antigos territórios coloniais em continente africano, culturalmente multifacetado – , inserindo-se naquilo que Kwame Anthony Appiah (“Na casa de meu pai”, 1997) chama de segunda fase da literatura pós-colonial: textos que deslegitimizam o projeto nacionalista da burguesia nacional pós-colonial. Em seuromance “Venenos de Deus, remédios do Diabo” (2008), Mia Couto dá continuidade a este seu projeto literário, onde a relativização das verdades (e das mentiras) engendra a trama deste livro que conta a história de Bartolomeu Sozinho (ex-mecânico naval da Companhia de Navegação Colonial), sua esposa Dona Munda, o médico Sidónio Rosa e a mulher que este ama e busca reencontrar em Vila Cacimba, cenárioda história, Deolinda.
O primeiro aspecto que chama nossa atenção em “Venenos de Deus, remédios do Diabo” é seu aspecto fantástico. Ao chegar em Vila Cacimba, o médico Sidónio Rosa se vê na obrigação de tratar os habitantes do lugarejo de uma estranha epidemia (supostamente de meningite) que os transforma, segundo o narrador, em “tresandarilhos”. A despeito da epidemia, Sidónio dedica especialatenção a Bartolomeu Sozinho, que vive enclausurado em seu quarto e padecendo de misteriosa e mortal debilidade, visitando-o diariamente. Bartolomeu é casado com Munda, mulher que vive a hostilizar e que acredita infiél. Esta, por sua vez, mantém uma relação incerta com seu marido: ao mesmo tempo em que o hostiliza e pede por sua morte, é capaz de dormir à porta de seu quarto para estar atenta sefor solicitada. A atenção especial do médico ao casal justifica-se em seu interesse por Deolinda, mulher que conhecera em Portugal e pela qual se apaixonara, supostamente filha de Bartolomeu e Munda, e ausente de Vila Cacimba para realizar cursos de aperfeiçoamento. Seu destino e a data de retorno são ignorados, porém comunica-se com Sidónio através de cartas que lhe chegam às mãos por intermédiode Munda, que por sua vez as recebe de “familiares”, pois “aqui em África, todos são familiares” (p. 47) – argumenta a personagem em arroubo pan-africano. Nestas cartas, Deolinda pede a Sidónio que vele por seus pais, e que lhes dê alguns presentes a fim de lhes atenuar as dores e propiciar um pouco de conforto, como um televisor para a mãe, por exemplo. O leitor tem aqui a impressão do caráter deescambo apresentado pelo conteúdo dos pedidos das cartas; escambo tão próprio dos tempos coloniais. Na relação do nativo com o europeu, estabelece-se um interesse mercantil onde ambos procuram obter vantagens da condição que ocupam: o europeu, que detém o capital, crê que pode comprar a confiança e o respeito do casal de nativos através dos presentes e da atenção que dispensa; os nativos seaproveitam de uma suposta situação de vitimização para alcançarem aos artefatos da modernidade que desejam possuir.
Este caráter mercantil das relações interétnicas é elemento recorrente na obra de Mia Couto e aparece, também e com muita força, em “O Outro Pé da Sereia” (2006), quando o personagem Benjamin Southman - um historiador estadunidense e afrodescendente que visita Vila Longe para se...
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