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Páginas: 9 (2052 palavras) Publicado: 24 de março de 2015
PONTO DE VISTA
A ESTRATÉGIA DO CRIME
Adriano Schwartz1
Folha de São Paulo
O escritor Ricardo Piglia já disse mais de uma vez que não há nada
além de livros de viagens ou histórias policiais. “Narra-se uma viagem ou
um crime. Que outra coisa se pode narrar?”. A afirmação é intensificada em
“Formas Breves”, há pouco lançado no Brasil, no qual ele diz que “o gênero
policial é o grande gênero moderno(...), inunda o mundo contemporâneo”.
Ao contrário do que normalmente se pensa, então, os herdeiros de
investigação de Dupin, Sherlock Holmes, padre Brown, Maigret, Poirot,
Marlowe, Spade ocupariam um lugar nobre numa potencial e sempre
controversa hierarquia do valor literário.
A própria produção do autor argentino - textos como “Respiração
Artificial” ou “Nome Falso”- confirma que a hipótesepode ser correta. Os
inúmeros títulos policiais de qualidade bastante questionável publicados
mensalmente, infestados de convenções e temas estereotipados, parecem
desmenti- la.
Como a intenção aqui não é criar um enigma insolúvel à espera de
mais um improvável detetive, e sim tentar entender um pouco melhor o
papel que esse tipo de narrativa exerce atualmente - e por que ele, ao mesmo
tempo,consegue ser atacado e defendido de modos tão peremptórios -, vale

1

Adriano Schwartz é editor do Caderno Mais! (Folha de São Paulo) e doutor em
teoria literária pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. O
artigo acima foi publicado, originalmente, no Mais!, em 8 de fevereiro de 2004.
Endereço eletrônico: aschwart@uol.com.br

Psicologia USP, 2003, 14(3), 195-200

195

AdrianoSchwartz

a pena retomar brevemente a sua origem e lembrar algumas das
modificações pelas quais passou.
O norte-americano Edgar Allan Poe, com Auguste Dupin,
personagem de três de seus contos, cria na primeira metade do século 19
(em 1841, com “Os Crimes da Rua Morgue”) o primeiro detetive de fato da
literatura policial e estabelece alguns padrões que foram seguidos por vários
autores: o narrador éum amigo/discípulo do investigador; a reflexão
predomina sobre a ação; o final precisa surpreender o leitor.
Inventado pelo inglês Conan Doyle, Sherlock Holmes, o mais famoso
dos detetives, segue a fórmula. Suas histórias são contadas por um médico e
admirador, o dr. Watson, e ele se vale de sua mente poderosa e de uma
minuciosa busca de indícios e pistas que a outros haviam passado
despercebidospara solucionar os mais difíceis crimes, sempre de modo
inesperado. E também, para muitos, de modo irritante, uma vez que muitas
das conclusões de Holmes são extraídas esotericamente, sem que o texto
tivesse possibilitado ao leitor chegar à mesma solução por sua conta: é como
se a narrativa fosse “desonesta”.
Segundo Jorge Luis Borges, grande admirador, crítico e autor do
gênero policial, essa éuma falha inaceitável. “Declaração de todos os termos
do problema: se a memória não me engana (ou sua falta), a variada infração
dessa lei é o defeito preferido de Conan Doyle”, afirma o autor em um de
seus “mandamentos da narração policial”. Raymond Chandler reafirmaria o
argumento, em suas “regras para histórias de mistério”: “Elas precisam ser
honestas com o leitor. Isso é sempre dito, mas o quea frase implica
freqüentemente não é levado em conta”.
De falha desse tipo sofrem muitos dos desfechos dos casos do padre
Brown, de Chesterton, apesar de este ser sempre muito elogiado por Borges.
Para ele, o inglês dominava a técnica de transmitir a impressão de que havia
algo de irreal por trás do acontecimento criminoso, para logo apresentar uma
solução totalmente racional. O método de Brown?Colocar-se no lugar do
adversário, transformar-se no adversário. Ainda assim, é muito difícil
assimilar sem uma ponta de incredulidade a resolução de “O Homem

196

A Estratégia do Crime

Invisível”, para citar um dos contos mais famosos do autor. O mesmo ocorre
com as histórias de dois dos mais prolíficos autores policiais, George
Simenon e Agatha Christie.
No final dos anos 20, nos EUA,...
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