Uma hist ria confusa

Páginas: 7 (1573 palavras) Publicado: 24 de julho de 2015
Uma história confusa
Era quinta-feira. Como nas últimas quintas, ele estava muito nervoso e trazia um envelope na mão. Jogou o envelope em cima da mesa, ficou andando pelo quarto.
— Outra carta? — perguntei.
Não respondeu. Só fez um movimento impaciente com os ombros, que podia significar muitas coisas. Mas não disse nada. Eu então abri e li as palavras datilografadas com cuidado:
Te vi por trásdas rosas e havia nos teus olhos uma ânsia muda. Algo assim como se quisesses falar comigo. Juro que na saída tentei me aproximar Mas tive medo. Sei que ainda vamos ser amigos. Não quero forçar nada. Hoje é domingo pouco antes do almoço. A casa está vazia. Eu gostaria de ter escrito logo depois daquela noite. É incrível, mas há duas décadas, nesse mesmo dia da semana, nessa mesma hora, eu estavanascendo.
— É bonito — eu arrisquei. — Um pouco juvenil, talvez. Mas bonito. Afinal, a adolescência é sempre bonita.
— Ele tem vinte anos.
— Ele? Como é que você sabe que é ele e não ela?
— Eu acho, eu sinto. Uma mulher não escreveria essas coisas. Não sei, o jeito de escrever, alguma coisa.
— Pode ser — eu disse.
— E tinha uma outra carta, acho que não mostrei a você. Ele dizia que estavacansado, isso mesmo, cansado e não cansada.
— Não lembro — menti. — E ele pode estar mentindo. Essa data, por exemplo, essa data pode ser inventada.
Ele evitou meus olhos ao contar:
— Fui consultar um astrólogo. Ele nasceu a 22 de setembro de 1954. Entre mais ou menos dez e meio-dia. É de Virgem, o astrólogo disse, do último dia de Virgem. Pelos cálculos, o ascendente deve ser Escorpião.
— Ascendente?
—É o signo que. — Ele levantou os olhos, irritado. Escuta, você não vai querer agora que eu te dê uma aula de astrologia, vai?
— Não, não. Só queria saber o que quer dizer isso.
— Quer dizer que ele deve ser inteligente. Muito inteligente. E secreto, misterioso, intenso. Só pelas cartas qualquer um percebe que ele tem certa... certa estrutura. As cartas são bem escritas, a gramática é semprecorreta.
— É verdade — eu disse. — Corretíssima.
Ele sentou na beira da cama. E afundou no travesseiro:
— Não agüento mais. Isso tem quase dois meses. Preciso saber quem é essa pessoa.
Sentado aos pés da cama, eu não sabia o que dizer.
— Ele sabe tudo sobre mim, os meus horários, tudo. As vezes fala de pessoas que conheço, de lugares onde vou. Deve estar sempre por perto, deve conhecer muita gente que euconheço.
— Você está muito agitado.
— Claro. Como é que você queria que eu estivesse? Cada vez que recebo uma carta dessas fico assim. Me dá uma sensação estranha, saio na rua com a impressão que estou sendo observado. Alguém que eu não sei quem é acompanha todos os meus passos.
— Com amor — eu disse.
Ele acendeu um cigarro e ficou seguindo a fumaça até o teto:
—Amor? Não sei. É meio paranóico.Parece uma coisa para enlouquecer a gente devagar.
— Ou para fazer que você se interesse por ele.
Levantou-se de repente e debruçou-se na mesa. De costas, eu só podia ver seus ombros curvos e as duas mãos abertas segurando a cabeça desgrenhada.
Fico imaginando as histórias mais incríveis. Às vezes acho que é alguém querendo divertir-se comigo.
— Não. — E eu disse pela segunda vez: — Isso é amor.
—Será? Tem coisas, tem coisas que ele escreve que parecem. Não sei, parecem verdade, entende? Ele me toca, mexe comigo. Talvez eu esteja assim todo lisonjeado porque alguém parece prestar tanta atenção em mim.
— Isso é amor — eu repeti pela terceira vez. Ele caminhou até ajanela. Percebi que olhava as folhas das palmeiras no meio da rua, remexidas pelo vento norte.
— As vezes tenho vontade debancar o detetive. Mas as pistas são muito tênues. Selos comuns, envelope comum, cada dia um carimbo de uma agência diferente. E esse tipo de máquina é o mais comum que existe.
— Lettera 22.
Ele jogou a ponta do cigarro pela janela, voltou- se de repente e me olhou nos olhos:
— Como é que você sabe?
— Bom, qualquer um que lida com máquina de escrever reconhece logo. E inconfundível — eu afirmei. E...
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