Um papel secundário: o espectador

Páginas: 8 (1987 palavras) Publicado: 24 de fevereiro de 2013
A abordagem

O teatro é espetáculo – por conseguinte, forma de socializar as relações humanas que não implica o espectador como variável mas como constante. Tal presença não é uma alternativa, mas isto sim, algo imperativo. Variável e alternativa é a maneira de integração dos espectadores no espetáculo teatral. Essa maneira de integração engendra, no último período, numerosas tensões. Dentreelas destaco as seguintes:
1. face à evolução demográfica, a audiência dos teatros é, em certos países europeus, inferior ao nível atingido um quarto de século antes;
2. os sucessos de público constroem uma hierarquia da criação teatral segundo uma escala de valores sensivelmente diferente daquela dos criadores e especialistas.
Grande parte dos espectadores possui tendência a criar uma imagemdesestetizante dos espetáculos a que assistiu.
As causas desses fenômenos são procuradas, geralmente, no interior do espetáculo. Tal orientação me parece perfeitamente legítima. Penso, no entanto, que existem causas que surgem fora do espetáculo – mais exatamente, causas cuja origem deve ser procurada na maneira como o teatro se articula com o conjunto social a que pertence.
Tal hipótese me obrigaa uma definição do conceito fundamental – no caso, o espetáculo de teatro – definição essa que, tendo em vista o tipo de abordagem, deve ser operatória. Fazendo abstração, por causa das servidões metodológicas, de certas fórmulas particulares (happening etc.), vou considerar o espetáculo de teatro como uma associação humana que tem uma estrutura e funções específicas. A essência dessa associação éa ação programada no sentido da construção de uma experiência humana simulada e a percepção dessa construção à medida do seu desenvolvimento. As duas ações fundamentais do espetáculo – a construção e a percepção – estão rigorosamente separadas. Conseqüência: as pessoas que constituem a ação chamada espetáculo estão, por sua vez, separadas em protagonistas e espectadores, em conformidade com umadivisão funcional aparentemente dicotômica. Nessa estrutura, como em qualquer processo de comunicação, também o emissor e o receptor são elementos absolutamente vitais e reciprocamente inalienáveis.

O ritual

A função mais geral dessa interação é a de uma ritualização determinada dos relacionamentos humanos. O teatro pressupõe, entre todas as artes, o mais alto grau de ritualização. O queequivale a dizer que os valores rituais são convertidos pelo teatro em valores estéticos. Trata-se de um mecanismo que, ao assimilar as características gerais do ritual, lhes confere uma qualidade específica.
Todo ritual implica necessariamente uma linguagem que lhe é própria e consiste, sobretudo, em atribuir significações particulares a comportamentos habituais. A essência lúdica deste códigotende a dissimular por trás de sua acepção geral. Como linguagem, o ritual se torna um jogo que nega sua própria essência. E dessa auto-negação emerge o valor cerimonial.
O instrumento dessas transformações é a convenção. As máscaras não ocultam tão-somente os rostos, elas ocultam, principalmente, as relações entre as pessoas. A convenção é uma regra arbitrária do comportamento, investida do valor deuma norma social. Através desse mecanismo a convenção se transforma em conveniência, variante inocente da cumplicidade, que ainda é uma das formas mais sólidas da solidariedade humana. As convenções do jogo, criadas pela vontade das pessoas, assume força de lei, acima da vontade das pessoas. O ritual parece admitir assim a precariedade da imaginação humana: o próprio jogo reproduz o modelo socialda subordinação; somam-se leis fabricadas às leis impostas, o que faz pensar numa bizarra voracidade masoquista de coerção.
O teatro é uma manifestação estética da necessidade de ritual. O ritual do teatro é uma modalidade através da qual o homem compõe uma imagem de si mesmo; ele crê, dessa maneira, dominar sua condição transformando-a em objeto de contemplação. Esta virtude é comum a todas...
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