Tupinambás

Páginas: 33 (8221 palavras) Publicado: 21 de setembro de 2014
Antropofagia, incisões corporais, terra-sem-mal:
os mortos e a territorialidade Tupi nos séculos XVI e XVII

Resumo
O processo de ocupação do território americano pelos europeus nos séculos XVI e XVII significou
não apenas a submissão ou a expulsão dos índios, mas também a destruição de formas
específicas de territorialização, incompatíveis com a empresa colonial. Este texto buscacontribuir
para a compreensão de como os índios Tupi da costa brasileira construíam uma idéia de território,
em termos muito diferentes daqueles operados pelos europeus. O foco específico são as formas
de relacionamento entre os vivos e os mortos, que o texto defende ser uma chave de explicação
eficaz para compreender aspectos da territorialidade dos índios. Utiliza-se de fontes do início da
IdadeModerna, que mostram uma mentalidade européia profundamente marcada pela
religiosidade, que identificava elementos na cultura dos índios que, por vezes, nossos olhos
contemporâneos captam com mais dificuldade. As relações entre vivos e mortos são investigadas
no texto a partir de três elementos inter-relacionados: as migrações em busca da imortalidade, a
antropofagia e as incisões corporais queregistravam os guerreiros mortos em combate.

Introdução
Vistas pelas lentes contemporâneas da alteridade, do respeito às especificidades culturais, as
fontes sobre os índios nos dois séculos após a conquista revelam limites, preconceitos e dogmas,
fundamentando a impressão da impossibilidade total de acesso àquele universo. Por outro lado, a
mentalidade européia profundamente marcada pelareligiosidade da Alta Idade Moderna – tanto
em sua vertente humanista quanto a contra-reformista, olhares católicos assim como protestantes
– identificava elementos que, por vezes, nossos olhos contemporâneos captam com mais
dificuldade. Segundo Hèlene Clastres, os cronistas do século XVI tinham mais sensibilidade para
as especificidades religiosas dos índios do que nosso mundo laico originadono século “das
luzes”, o XVIII, quando cada vez mais as práticas religiosas são descritas com termos genéricos
como “ateísmo”, “animismo”, “fetichismo”, que nos dão poucas possibilidades efetivas para sua
compreensão: “no século XVIII, foram perdidos tanto a especificidade do fato religioso quanto a
singularidade dos selvagens” (Clastres,1988,p.117).
Este texto constrói-se sobre o olharreligioso dos cristão dos séculos XVI e XVII, sem filtrá-lo com
nossos truísmos laicos, ao contrário, aceitando a religião como instrumento de contato e
compreensão do universo ameríndio, de tradução entre culturas (Pompa,2003). Busca extrair
daquele olhar algo de um mundo que há muito deixou de existir, contribuindo para
compreedermos como os Tupi construíam uma idéia de território, em termos muitodiferentes
daqueles operados pelos europeus. O foco específico são as formas de relacionamento entre os
vivos e os mortos, que defendo aqui ser uma chave de explicação eficaz para adentrarmos as

territorialidades dos índios.
O texto utiliza fontes já visitadas por diversos autores, procurando fazer um arranjo original que
revele vieses ainda pouco estudados. Mostra que o processo deocupação do território pelos
europeus significou não apenas a submissão ou a expulsão dos índios, mas também a destruição
de formas específicas de territorialização, incompatíveis com a empresa colonial. Não levar isso
em conta significa assumir irrestritamente a visão dos vencedores, escolha que deve ser, no
mínimo, problematizada.

Como morriam os índios
O Brasil alcançado no século XVI erapovoado predominantemente pelos grupos Guarani (na
bacia Paraná-Paraguai) e Tupi (na costa). Pertenciam a uma mesma família linguística, e
compartilhavam uma série de elementos culturais. Aqui, trataremos dos chamados Tupi da Costa,
o grupo predominante nos dois primeiros séculos de contato e que – mesmo dividido em aldeias
que cultivavam guerras e inimizades entre si – constituía uma unidade...
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