Sobre o exílio de edward said

Páginas: 23 (5513 palavras) Publicado: 4 de dezembro de 2012
REFLEXÕES SOBRE O EXÍLIO (SAID)
O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma
fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial
jamais pode ser superada. E, embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos,
românticos, gloriosos e até triunfais da vida deum exilado, eles não são mais do que esforços para superar a
dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo
deixado para trás para sempre.
Mas, se o verdadeiro exílio é uma condição de perda terminal, por que foi tão facilmente
transformado num tema vigoroso — enriquecedor, inclusive —da cultura moderna? Habituamo-nos a
considerar operíodo moderno em si como espiritualmente destituído e alienado, a era da ansiedade e da
ausência de vínculos. Nietzsche nos ensinou a sentir-nos em desacordo com a tradição, e Freud a ver na
intimidade doméstica a face polida pintada sobre o ódio parricida e incestuoso. A moderna cultura ocidental
é, em larga medida, obra de exilados, emigrantes, refugiados. Nos Estados Unidos, o pensamentoacadêmico, intelectual e estético é o que é hoje graças aos refugiados do fascismo, do comunismo e de
outros regimes dados a oprimir e expulsar os dissidentes. O crítico[p. 46] George Steiner chegou a propor a
tese de que todo um gênero da literatura ocidental do século XX é "extraterritorial", uma literatura feita por
exilados e sobre exilados, símbolo da era do refugiado. E sugeriu:
Pareceapropriado que aqueles que criam arte numa civilização de quase barbárie, que produziu
tanta gente sem lar, sejam eles mesmos poetas sem casa e errantes entre as línguas. Excêntricos,
arredios, nostálgicos, deliberadamente inoportunos...
Em outras épocas, os exilados tiveram visões transnacionais e multiculturais semelhantes, sofreram
as mesmas frustrações e aflições, desempenharam as mesmas tarefaselucidativas e críticas —
brilhantemente afirmadas, por exemplo, em The Romantic Exiles [Os exilados românticos], o estudo clássico
de E. H. Carr sobre os intelectuais russos do século XIX agrupados em torno de Herzen. Mas a diferença
entre os exilados de outrora e os de nosso tempo é de escala: nossa época, com a guerra moderna, o
imperialismo e as ambições quase teológicas dos governantestotalitários, é, com efeito, a era do refugiado,
da pessoa deslocada, da imigração em massa.
Tendo por fundo esse cenário amplo e impessoal, o exílio não pode ser posto a serviço do
humanismo. Na escala do século XX, o exílio não é compreensível nem do ponto de vista estético, nem do
ponto de vista humanista: na melhor das hipóteses, a literatura sobre o exílio objetiva uma angústia e umacondição que a maioria das pessoas raramente experimenta em primeira mão; mas pensar que o exílio é
benéfico para essa literatura é banalizar suas mutilações, as perdas que inflige aos que as sofrem, a mudez
com que responde a qualquer tentativa de compreendê-lo como "bom para nós". Não é verdade que as visões
do exílio na literatura e na religião obscurecem o que é realmente horrível? Que o exílio éirremediavelmente
secular e insuportavelmente histórico, que é produzido por seres humanos para outros seres humanos e que,
tal como a morte, mas sem sua última misericórdia, arrancou milhões de pessoas do sustento da tradição, da
família e da geografia?
Ver um poeta no exílio — ao contrário de ler a poesia do exílio — é ver as antinomias do exílio
encarnadas e suportadas com uma intensidadesem par. Ha vários anos, passei algum tempo corn Faiz
Ahamad Faiz, o maior dos poetas urdus contemporâneos. Ele foi exilado de seu Paquistão nativo pelo
regime miltar [p.47] de Zia e encontrou uma espécie de acolhimento na Beirute dilacerada pela guerra.
Naturalmente, seus amigos mais próximos eram palestinos, mas eu percebia que, embora houvesse uma
afinidade de espírito entre eles, nada...
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